Quando vou a Paris costumo arranjar tempo para ir ao Quai de Montebello olhar a Notre-Dame. A vista que daí se vê é bonita, com uma luz fantástica, faça chuva ou faça sol, e tranquilizante. Não é só a imensidão de espaço que surge das ruas estreitas de quem espreita vindo da Rive gauche, mas também a Catedral, o se saber que apesar de todas as mudanças e contigências da vida, da nossa e da dos outros, aquele edifício estava ali. Continuava intacto. Por dentro e por fora, mesmo com as revoluções e as guerras, ali estava, fora visto, tal como era até segunda-feira, por outras pessoas há 800, 500, 300, 150 anos, mesmo que o formato que conhecemos da Île de la Cité o devamos a Haussmann e o pináculo fosse também do século XIX. Aquela era uma imagem de perenidade que sabia bem. Confortava. Era ilusória como se vê, como é ilusório tudo na vida, mas como tudo o que na vida ilude dava ânimo.

Mas a Notre-Dame era muito mais que isso: era uma igreja, a Catedral de Paris, e era a Europa. Não é difícil dizer que era (escrevo no passado apesar de há hora em que o faço surgirem fotografias no twitter confirmando que as rosáceas sul e norte continuam intactas e que a estrutura do edifício se manterá de pé) o ponto zero da civilização europeia que surgiu na Baixa Idade Média, com o aumento da população na Europa (no século XIII Paris tornou-se na cidade mais populosa do continente com cerca de 150 mil habitantes), o surgimento dos Estados que conhecemos hoje (entre os quais Portugal), o desenvolvimento do comércio entre as cidades, o início do fim do domínio da nobreza e o aparecimento da burguesia. A Notre-Dame de Paris foi construída nesse tempo de mudança, para fazer face a essas mudanças, mas também para fazer parte delas. Era um marco de um tempo em que a Igreja estava a par do tempo.

Construída sem intervenção e financiamento real, logo à margem do poder soberano, era uma lembrança e um sinal aos limites do poder do monarca, numa época em que não existia separação de poderes, mas apenas a Igreja. Logo na noite de segunda-feira, e após Emmanuel Macron ter anunciado uma campanha de recolha de fundos para o financiamento das obras de restauro, foram vários os que se indignaram por o Estado, o poder político, não pagar as obras de reconstrução da Catedral, cujo património é de todos. A diferença de percepção do que é do Estado e do que é da comunidade que se tem hoje e que se tinha no século XII revela bem o que se deteriorou no Ocidente.

A Notre-Dame que ardeu na segunda-feira acompanhou-nos na caminhada que a Europa fez até se tornar o centro do mundo. Sobreviveu além dessa realidade que já não existia. Pode parecer um pouco dramático concluir que a sua queda seja um símbolo da decadência europeia, do desnorte dos estados europeus e dos seus cidadãos. No entanto,  sendo o símbolo uma imagem de algo abstracto que não conseguimos especificar, um sinal, o fim (mesmo que parcial) da Notre-Dame de Paris, devia funcionar como rebate de consciência para o que está a acontecer ao Ocidente. Para o que nos está a acontecer enquanto comunidade.

Advogado