Este ano festejou-se, a 20 de Julho, o cinquentenário da chegada de Neil Alden Armstrong à Lua, em 1969. Ao pisar o solo lunar, o astronauta norte-americano disse que, aquele seu pequeno passo, era um gigantesco avanço para a humanidade.

Quase uma década antes, a 12 de Abril de 1961, o cosmonauta soviético Iuri Alekseievitch Gagarin tinha sido o primeiro ser humano a viajar no espaço, a bordo da nave Vostok 1. Na história da epopeia espacial, norte-americanos e russos experimentaram êxitos e fracassos, como se a providência se tivesse encarregado de não dar a nenhum destes dois povos a exclusividade desta proeza de todo o género humano.

Algo semelhante aconteceu com a primeira viagem à volta do mundo, protagonizada há precisamente quinhentos anos, pelo navegador português Fernão de Magalhães, mas ao serviço dos reis católicos. A glória desta empresa, sendo ao mesmo tempo portuguesa e castelhana, é sobretudo ibérica e cristã.

Não há dúvidas quanto à identidade do primeiro homem a pisar a Lua, mas talvez Yuri Gagarin não tenha sido, realmente, o primeiro cosmonauta. Com efeito, exceptuado o caso, porventura mais místico do que histórico, do profeta Elias (consta que foi levado para o Céu num carro de fogo), a ascensão de Cristo parece ter sido a primeira viagem espacial. Os evangelistas são unânimes no que respeita a este acontecimento, que os apóstolos observaram atentamente, o que dá a este facto consistência científica. Apesar de aqueles homens já acreditarem na condição divina do seu Mestre, não creram facilmente na sua ascensão: foi preciso que uns anjos os convencessem a aceitar a evidência desse facto histórico, que eles próprios viram e testemunharam.

Assim sendo, Jesus Cristo foi o primeiro ser humano a quem se pode atribuir, com propriedade, a condição de cosmonauta. Mas não a primeira criatura porque, dada a sua condição divina, unida à natureza humana desde o momento da sua encarnação, não é criatura, mas o próprio Criador, com o Pai e o Espírito Santo.

Será então que, a primeira criatura humana que viajou no espaço, foi mesmo o astronauta russo Yuri Gagarin? Não, porque, segundo a doutrina católica, também a Mãe de Jesus de Nazaré, Maria, subiu ao Céu em corpo e alma. Como o não fez por virtude própria, como o seu divino filho, não se usa o termo ascensão, mas assunção: é esta a grande solenidade mariana que, todos os anos, a Igreja celebra no dia 15 de Agosto.

É verdade que, em relação à assunção de Nossa Senhora, a Sagrada Escritura é omissa: não só não refere a sua ida para junto da Santíssima Trindade, como nem sequer diz quando, como e onde faleceu, se é que tal aconteceu. Com efeito, cabe a hipótese da sua morte – que tem expressão na consistente memória da ‘dormição’ de Maria – mas também que não tenha morrido, porque a morte é consequência do pecado original, de que a Mãe de Jesus foi preservada na sua concepção, que por isso foi imaculada.

Ante o silêncio da Bíblia sobre o trânsito de Nossa Senhora desta vida para a eternidade, o magistério da Igreja colmatou essa lacuna com a proclamação do dogma da sua assunção, o último definido pela suprema autoridade papal, que é garantia, para os católicos, da sua indefectível veracidade. Com efeito, em 1950, o Papa Pio XII, depois de uma consulta aos católicos, proclamou ex cathedra, ou seja em virtude da sua potestade, que a virgem Maria, terminada a sua vida terrena, foi levada em corpo e alma para o Céu.

Nem o magistério pontifício, nem as visões dos místicos, nem os ensinamentos dos teólogos lograram explicar como ocorreu o transporte de Nossa Senhora, na sua assunção ao Céu, que também ninguém observou. No entanto, esta questão parece ter sido esclarecida nas aparições em Fátima.

Com efeito, a penúltima aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria, no dia 13 de Setembro de 1917, foi presenciada por uma multidão de peregrinos, entre os quais se contava Monsenhor Dr. João Quaresma, que viria a ser vigário-geral da diocese de Leiria-Fátima; e os seus amigos, os Padres Dr. Manuel do Carmo Góis e Manuel Pereira da Silva; bem como o Padre António Maria Figueiredo, professor do Seminário de Santarém. Convém recordar que, na altura, foi o clero quem mais se opôs às aparições marianas.

«Com grande admiração minha» – escreveu Mons. João Quaresma – vi «clara e distintamente um globo luminoso, que se movia do nascente para o poente, deslizando, lento e majestoso, através do espaço. O meu amigo olhou também e teve a felicidade de gozar da mesma inesperada e encantadora aparição… quando, de repente, o globo, com a sua luz extraordinária, sumiu-se aos nossos olhos». Intrigado pelo fenómeno, perguntou ao seu amigo, o P. Manuel Góis:

«- Que pensas daquele globo? […].

«- Que era Nossa Senhora! – respondeu sem hesitar.

«Era também a minha convicção. Os pastorinhos, numa celeste visão, contemplaram a própria Mãe de Deus; a nós fora-nos concedida a graça de ver o aeroplano que a tinha transportado do Céu à charneca inóspita da Serra de Aire…».

Sobre este particular, esclarece o Cónego C. Barthas, o mais famoso historiador francês de Fátima: «Algumas narrativas acrescentam que o globo luminoso tinha uma forma oval, com o lado maior voltado para baixo. Todos os que o viram, tiveram a impressão, como os dois sacerdotes já citados, de que se tratava de uma forma semelhante a um avião que trazia a Mãe de Deus ao encontro prometido dos pastorinhos e que a transportou de novo ao Paraíso» (C. Barthas, Fátima, págs. 130-131). Outras testemunhas do facto descreveram essa nave espacial sui generis, como «um globo de luz viva que avançava lentamente, de Este para Oeste, descrevendo no espaço uma linha inconfundível, até desaparecer no horizonte» (M. Fernando Silva, Pastorinhos de Fátima, pág. 287). Os dois relatos coincidem na expressão “globo luminoso”, ou “de luz viva”. Que seria?! A fé e a ciência não têm resposta, mas que era alguma coisa, era …

Fosse o que fosse, talvez não seja temerário supor que, pela sua assunção, Maria foi a primeira criatura humana a transpor o espaço. Não foi uma mera espectadora da História, mas uma protagonista e precursora de uma das maiores proezas da humanidade.

Os santos não são os que, por amor a Deus, se desinteressam do mundo, mas os que, com a sua bem-aventurada vida, mais e melhor contribuem, também em termos científicos e tecnológicos, para a evolução do género humano: os principais obreiros das verdadeiras revoluções civilizacionais.