Há uns meses, pareceu que as próximas eleições serviriam apenas para escolher entre o almirante Gouveia e Melo e outro candidato. Entretanto, as coisas mudaram. Gouveia e Melo perdeu as percentagens do início, e todos os partidos, à excepção do PAN, passaram a ter candidatos. Estamos agora perante eleições diferentes. Basta passar os olhos pelas notícias e comentários. O que está em causa, no que vai certamente ser uma eleição em duas voltas, já não é, na primeira volta, escolher um presidente, mas medir a relação de forças entre os partidos. Só na segunda volta as eleições serão presidenciais.

Pensando bem, era inevitável. O sistema partidário está demasiado instável para haver eleições que não sejam aproveitadas para, mais uma vez, ver se o Chega continua a crescer, se PSD ainda está à frente do PS, ou se é desta que a extrema-esquerda desaparece. Já foi assim nas autárquicas de Outubro. Vai ser assim nas presidenciais de Janeiro. O Chega precisa de provar que não é nenhum PRD, o PSD que o longo domínio socialista acabou, o novo líder do PS que pode fazer melhor do que o anterior, a IL que não entrou em declínio, os comunistas e o BE que ainda estão vivos, etc. É a isso que os eleitores vão responder na primeira volta, e é isso que vai ser comentado. A desorientação de Gouveia e Melo vem daí: subitamente, tornou-se um candidato misterioso, com muita dificuldade em explicar ao que vem. Devemos ser caritativos: não foi ele que não conseguiu apossar-se destas presidenciais; é o país que tem mais em que pensar.

Não vale, portanto, a pena perder tempo a avaliar o perfil presidencial dos candidatos. Isso fica para uma segunda volta, quando se reduzirem a dois. Aí, sim, os partidos passarão a segundo plano, e a escolha será entre duas pessoas. Antes disso, não. Votar em Marques Mendes é votar em Montenegro e na sua recusa de liderar uma maioria reformista; votar em André Ventura é votar no Chega e na necessidade de falar dos problemas, com este ou outro estilo; votar em António José Seguro é votar em José Luís Carneiro e na hipótese de libertar o PS da mão morta de Sócrates e de Costa; e etc.

Mas não é isso perverter o que devia ser apenas a eleição do presidente da república? Não é. Portugal está perante um dos momentos de maiores dúvidas da sua história. O longo período de convergência com a Europa que definiu a segunda metade do século XX acabou há 20 anos. As migrações descontroladas e o wokismo importado dos EUA puseram em causa a coesão da sociedade portuguesa. O primeiro efeito desses abalos foi a transformação do sistema partidário. Como seria possível termos eleições que fossem só sobre as personalidades e opiniões pessoais dos candidatos?

Há duas questões decisivas nesta primeira volta das presidenciais. Uma é impedir que as inquietações sobre o país saiam do debate público, como a oligarquia deseja. O voto no candidato do Chega é quase que o único meio que resta ao eleitor para garantir que da imigração descontrolada não se diga apenas que paga as pensões, ou da insegurança que é só uma impressão de quem vê vídeos nas redes sociais. O candidato da IL também tem mostrado consciência dos problemas, mas a IL não, como indica uma política de alianças que exclui o Chega, mas inclui o PCP.

A outra questão é saber se Portugal poderá contar com uma esquerda lúcida e responsável como a dinamarquesa, e não apenas com os restos do PREC misturados com as modas ideológicas americanas e a ganância do caciquismo provinciano. Se António José Seguro for livre de renunciar à herança de Sócrates e Costa, talvez o voto no candidato do PS ajude a essa mudança.