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O passageiro percebeu finalmente que tinha chegado ao fim da linha. Ou o mais provável é que o tenham feito perceber. Depois de ter tentado várias vezes ficar a dormir na carruagem no fim da viagem, desta vez António Costa percebeu que também podia ser despedido e lá convenceu o homem a procurar outro abrigo para passar a noite.

Cabrita e Costa são duas faces da mesma moeda, julgam-se acima da crítica e acima da lei, porque no seu imaginário basta ter o cartão do Partido Socialista para que qualquer pecadilho lhes seja perdoado. Afinal, ninguém como eles defende os interesses e os direitos de toda uma classe trabalhadora; por isso, que mal faz um imigrante estrangeiro morto aqui, ou um trabalhador português morto ali? O que interessa é que no PS, dizem os próprios, se defendem os direitos humanos.

Mas, se é assim, porque sai Cabrita a dois meses de eleições? Precisamente por isso, explica o próprio como quem diz: sou capaz de estragar os planos eleitorais ao Costa. António Costa diz que não, a ideia já vinha de trás, tão de trás que já nem o próprio ministro se lembrava que era para se demitir. E o próprio António Costa também só agora se lembrou que até já tinha pensado que talvez não tivesse o melhor governo e que seria melhor remodelar. Mas veio a dissolução do Parlamento e já agora escusava de queimar cartuxos que lhe podem ser úteis para o futuro.

É já a pensar nesse futuro vitorioso que António Costa decidiu, nos últimos dias, fazer as suas confidências sobre como faz e desfaz governos. Depois de ter sido acusado de ter os maiores governos da história da democracia, cheios de primos, cunhados, irmãos, maridos e mulheres, António Costa promete agora inovar com um governo pequeno, que, garante, é muito mais eficaz. Nada como a experiência para perceber o óbvio.

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E como agora é um fã do small is beautiful, o primeiro-ministro começa já a ensaiar. Sai um passageiro do governo, não se arranja outro para o lugar, entrega-se o trabalho a quem já está no governo. Quem? A ministra da Justiça. Ninguém melhor do que o titular da pasta que garante a administração da justiça para ficar também com a segurança e a tutela das polícias. Maduro, Xi Jinping ou Lukashenko não fariam melhor.

Nem que fosse por um só dia, a acumulação de funções num mesmo ministro das pastas da Administração Interna e da Justiça é intolerável e típica dos estados totalitários. Que isto tenha passado pela cabeça de António Costa e tenha sido aceite como uma coisa normal, torna o caso ainda mais grave. Prova que vivemos de facto num país com pouca cultura cívica e política onde, como acontece com as crianças, o facto de não termos noção do perigo nos coloca frequentemente em situações de alto risco. Às vezes morre-se mesmo.