Saúde Pública

As vidas desfeitas pelo consumo de tabaco

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As campanhas públicas antitabágicas levam à redução do número de pessoas que começam a fumar, aumentam o número de fumadores que cessam o consumo tabágico, tendem a salvar vidas e a poupar dinheiro.

As vidas desfeitas pelo consumo de tabaco são as histórias que temos de nos lembrar. Quantos de nós recordam com saudade aqueles que connosco partilharam a vida, mas que já nos deixaram pelo hábito de fumar ou ajudados por ele? Quantas crianças deixaram de brincar com a sua mãe, pai ou avós e de com eles poder crescer por esse vício se intrometer nas suas vidas? Quantas vezes ficou um colo para dar? Quantas vezes um truque, jogo ou brincadeira não foi ensinado? Quanto afecto perdido, quanto carinho… Quantas mortes evitáveis, desestruturantes de famílias, condenando ao suplício, sofrimento ou criando disrupções com tantos outros efeitos secundários? O tabaco mata. E continua a matar. Muito já foi feito para ajudar na redução deste flagelo, mas ainda há muito por fazer como atestam os últimos números.

Medidas muito recentes terão, certamente, o seu efeito no futuro. A alteração de 2017 à Lei do Tabaco, além de ter aumentado os locais onde é proibido fumar (nomeadamente parques infantis) e equiparado os novos produtos ao tabaco mais tradicional, implementou pela primeira vez a comparticipação de medicamentos antitabágicos sujeitos a receita médica, o que possibilitou um aumento muito significativo na sua utilização e significou a diminuição dos constrangimentos económicos ao seu acesso.

Mas estas alterações não são ainda suficientes. A prevenção e redução do consumo do tabaco deve convocar-nos a todos. O tabaco é uma das principais causas evitáveis de morte prematura por cancro, por doenças respiratórias e por doenças cérebro-cardiovasculares. Em Portugal, em 2016, estima-se que o tabaco tenha contribuído para uma morte a cada 50 minutos (cerca de 11.800 pessoas, aproximadamente 10% das mortes). As pessoas fumadoras perdem, em média, cerca de 10 anos de vida e embora existam hoje menos homens a fumar, há actualmente mais mulheres a fumar.

A Campanha Nacional de Luta Contra o Tabagismo 2018, da Direção Geral da Saúde, “Opte Por Amar Mais”, agora lançada, é um bom exemplo deste esforço que devemos todos continuar a fazer. Particularmente pela forma como se enquadra no Plano Nacional de Prevenção do Tabagismo e pela articulação com outras medidas, como é exemplo a anunciada articulação entre os Ministérios da Saúde e da Educação, permitindo que conteúdos da campanha e com ela relacionados sejam trabalhados nas Escolas por todo o país, rentabilizando estes recursos e trabalhando desde cedo a literacia em saúde dos portugueses.

O crescimento muito significativo do consumo de tabaco entre as mulheres implica necessariamente acções específicas, incluindo de sensibilização, como esta campanha é, aliás, exemplo. A evidência científica é substancial e clara: As campanhas públicas antitabágicas possibilitam a redução do número de pessoas que começam a fumar, aumentam o número de fumadores que cessam o consumo tabágico, tornam o marketing utilizado pela indústria tabágica menos eficaz e, portanto, tendem a salvar vidas e a poupar dinheiro. Estas conclusões são apresentadas em relatórios como “Report of the Surgeon General 2012”, “Preventing Tobacco Use Among Youth and Young Adults” ou o “Report of the Surgeon General 2014, The Health Consequences of Smoking – 50 Years of Progress” (Riordan, 2017). Este tipo de campanhas é também considerado custo-efectivo. As mensagens que usam imagens ou testemunhos que relatam as consequências negativas para a saúde do consumo do tabaco são as mais eficazes no aumento do conhecimento, crenças positivas e comportamento de cessação tabágica.

Estes são passos importantes num desafio que deve ser abraçado por todos, não só decisores políticos e profissionais de saúde e de educação, mas de toda a sociedade. É da saúde e do bem-estar de todos que se trata. As consultas de cessação tabágica têm que continuar a ser reforçadas por todo o país, mas é necessário apostar mais em acções de prevenção e em estratégias de mudança de comportamento e de adesão às terapêuticas. Para isso é indispensável contar com mais conhecimento e mais especialistas em comportamento na definição de políticas e nos cuidados de saúde primários, como são os Psicólogos e Psicólogas.

Aos avós que já não estão entre nós e aos que ainda por cá andam e animam a vida dos seus netos.

Bastonário da Ordem dos Psicólogos

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