A propósito do dia mundial da saúde é importante salientar alguns aspectos mais esquecidos da saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) consagrou como tema este ano, a cobertura universal de saúde, reforçando o objectivo de assegurar que todos obtêm os cuidados de saúde próximos, próximos em tempo (quanda necessitam), próximos em local (na sua comunidade), próximos da sua situação (o que necessitam). Importa também relembrar a definição de saúde da OMS, enquanto “estado de completo bem-estar físico, mental e social e não só a ausência de doença ou enfermidade”.
Portugal tem um bom Serviço Nacional de Saúde (SNS) quando se comparam indicadores com o resto do Mundo. É já um lugar comum dizer que o SNS é uma das principais conquistas da nossa Democracia mas não é demais relembrar a importância da sua existência e mais ainda da sua preservação, desenvolvimento e da garantia de uma efectiva cobertura universal. É certo que o SNS pode não ser a única forma de garantir a cobertura nos termos defendidos pela OMS e por nós compartilhados, mas é parte indispensável e central. Para que a proximidade seja uma realidade temos que trabalhar em conjunto para garantir a continuidade de investimento e do reforço de meios nos cuidados de saúde primários, como absoluta prioridade, salvaguardando assim a aposta na prevenção, na literacia e no acesso aos cuidados mais básicos de saúde.
Acresce que a saúde não se esgota na saúde física como declara a OMS. Daqui resulta que para cumprir com a definição de saúde e com a cobertura universal de saúde, pese embora tudo (e que é muito!) o que já alcançámos, muito temos ainda que fazer. Só nos últimos anos tem ganho crescente atenção da população e dos decisores políticos a importância da prevenção e de se olhar e intervir nas causas comportamentais de muitas doenças, como são exemplo a diabetes, a hipertensão, a depressão, a ansiedade ou a obesidade. Só há pouco tempo tem ganho mais expressão e visibilidade as lacunas no acesso a serviços prestados por psicólogos, seja relativamente ao bem-estar físico, mental e social e aos hábitos de vida com ele relacionados, seja na intervenção ao nível das perturbações mentais. Sem criar condições para que os cidadãos, particularmente os mais fragilizados, tenham acesso a este tipo de cuidados de saúde e prevenção, seja ao nível dos cuidados de saúde primários ou de projectos comunitários, seja nas organizações prevenindo e intervindo nos riscos psicossociais ou nas escolas ajudando na promoção do ajustamento, do sucesso escolar e de competências sócio-emocionais protectoras para um desenvolvimento e uma vida saudável não poderemos almejar sustentavelmente uma saúde universal física, mental e social.
Vivemos um momento decisivo no que à saúde diz respeito. Os cidadãos são, mais do que nunca, os primeiros responsáveis e actores na tomada de decisão necessária que garanta de mais e melhor saúde para as futuras gerações.
Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses