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Cultura

Auto-confiança e auto-ajuda

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No que diz respeito à noção de auto-ajuda, aquilo que é duvidoso é a insistência sistemática em que tudo aquilo que nos diz respeito depende de nós.

A auto-confiança e a auto-ajuda são consideradas sentimentos parecidos; existe uma correlação observada entre ter a primeira e cultivar a segunda; e acredita-se em ambos os casos que causam emoções respeitáveis. São por isso encorajadas, consideradas desejáveis nas crianças, e objecto de estima. As noções foram inventadas por dois autores que viveram na mesma altura e que são frequentemente confundidos um com o outro. Há no entanto qualquer coisa de admirável na noção de auto-confiança, e qualquer coisa de duvidoso na noção de auto-ajuda.

O que é admirável na noção de auto-confiança não é naturalmente o exagero de supor que tudo depende das opiniões que temos a respeito de nós próprios, e em que costumamos acreditar; tais opiniões acelerarão quando muito o nosso metabolismo, far-nos-ão sair de casa sem cachecol, e levarão erradamente a imaginar que mais ninguém nota as vilanias que vamos cometendo. Mas a quem assim exagera só podemos lembrar que a estupidez humana está muito melhor distribuída do que se pensa.

O que é admirável numa pessoa auto-confiante é pelo contrário fazer certas coisas sem pedir desculpa, mas deixar de as fazer sem hesitação; ouvir as opiniões das outras pessoas, mas saber quando as opiniões das outras pessoas não adiantam; saber mudar uma lâmpada, mas saber quando precisa de um electricista. Haverá sempre quem veja estes momentos de independência e mudanças de direcção como manifestações de orgulho; mas trata-se de um orgulho venial. É no pior dos casos parecido com um ataque de soluços: desagradável mas assistemático, e aliás de curta duração.

No que diz respeito à noção de auto-ajuda, todavia, aquilo que é em todos os casos duvidoso é a insistência sistemática em que tudo aquilo que nos diz respeito depende de nós. O Evangelista tinha já sugerido que os médicos, para variar, se tentassem curar a si próprios. Sabia evidentemente que há qualquer coisa de suspeito na ideia de auto-medicação, como na ideia de profecia em causa própria, e na ideia de que o tempo que fará amanhã depende da nossa energia mental de hoje. O santo padroeiro da auto-ajuda é o Barão de Münchhausen, que há cerca de duzentos e cinquenta anos terá tentado içar-se de um pântano puxando pelo seu próprio carrapito.

A maior secção, e a mais frequentada, em qualquer livraria contemporânea é normalmente a secção onde se alinham os meios incontáveis de puxar por carrapitos próprios. Sob a designação genérica ‘auto-ajuda’ incluem-se aí os livros em que nos explicam que somos os nossos melhores amigos, os nossos melhores conhecedores, os nossos melhores terapeutas, os nossos maiores admiradores. Incluem-se também livros em que nos recomendam que tomemos o nosso destino nas nossas mãos, e em que nos explicam que enfrentar o nosso destino é como mudar o arranjo de uma sala; e que tudo o que nos diz respeito é fácil como desenvolver uma personalidade, ou ir acampar sozinho.

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