Há melhor em Alexandre Herculano (1810-1877) que os seus romances. Os ensaios, opúsculos, memórias, a prosa, a rabugice, e sobretudo a historiografia fazem dele de longe o mais complicado escritor português activo na primeira metade do século XIX. Como os outros liberais maiores, mostrou uma afeição desconcertante pelo Antigo Regime. Como eles, Herculano não foi um tory, porque não tinha interesse por nada que existisse; as suas lealdades estavam divididas entre o que já tinha desaparecido, e o que ele não tinha conseguido fazer. Mas Herculano não foi também um whig, na medida em que os seus espasmos a favor do comércio livre e dos direitos de autor foram sempre entrecortados por suspiros pelos tempos da religião estabelecida, do património edificado, e da vida comunitária.

A fama actual no entanto deve-a muito aos seus romances e novelas. Chama-se-lhes normalmente romances históricos, e nessa prática teve numerosos sucessores, todos (o que não é dizer pouco) piores que ele. O romance histórico inaugurou a tradição detestável daquilo a que um crítico chamou com acerto o romance de I&D: o romancista retira-se para um lugar onde existem obras de referência e fontes primárias, anuncia que está a pesquisar, e depois inventa umas pessoas que não existiram a fazer coisas historicamente reconhecíveis, ou umas pessoas que existiram a fazer coisas que não fizeram. É não obstante um género satisfatório, porque permite aos leitores, a partir de asserções magras, desenvolver uma sensação de conhecimento.

O melhor dos seus romances é Eurico o presbítero, de 1844. Podia ser o libreto de uma ópera perdida de Verdi. Passa-se sobretudo na Cantábria, entre godos, durante a invasão árabe do século VIII. Os portadores de nomes godos são difíceis de identificar; e além disso o herói epónimo tem três identidades: um assistente operacional de linhagem inferior (um “gardingo”, como Herculano informa que diziam os godos), que entretém comércio sentimental com a praticamente princesa Hermengarda; o presbítero subsequente, que não pode ter comércio com ela visto que sobre si “deixara cair a campa de bronze do sacerdócio”; e um Cavaleiro Negro, que organiza (embora sem êxito) a resistência aos invasores.

No penúltimo capítulo Eurico, como Cavaleiro Negro, entra numa gruta e aproxima-se de Hermengarda adormecida, a quem previamente tinha salvo; não se viam há dez anos. Hermengarda acorda, e percebe que Eurico, Eurico o presbítero e o Cavaleiro Negro são a mesma pessoa. O momento alto é o recitativo de Eurico, e o seu começo memorável: “Sabes tu, Hermengarda, o que é passar dez anos amarrado ao próprio cadáver?” Herculano, como Verdi, sabe muito bem que sem explicações destas não haveria dramas de jeito. Mas a pergunta é realmente acerca da relação forçada que qualquer pessoa e qualquer comunidade tem com o seu passado. Para Herculano todos vivemos atados àquilo que desapareceu; a sua historiografia anti-liberal é anunciada pelo recitativo de Eurico.

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