Querido Pai Natal,

Espero que esta carta te encontre bem, no conforto da tua casa na Lapónia, entre renas, elfos e muita, muita neve.

Imagino que, por esta altura, já estejas bastante ocupado a preparar a tua intensa jornada anual, com o trenó repleto de presentes e o saco cheio de amor, esperança e alegria. Perdoa-me escrever-te tão em cima da hora, mas por cá, as coisas não têm sido fáceis.

O meu nome é Portugal, tenho 9 séculos de existência e os meus cidadãos gostam de se referir a mim carinhosamente por “cantinho à beira-mar plantado”. Sou o país europeu do sol, da boa comida, do fado e do futebol. Sou visitado (cada vez mais) por milhões de turistas todos os anos e tenho-me posicionado como um destino maravilhoso para quem quer melhores condições de vida. Para além disso, sou um país seguro, calmo e onde acima de tudo, reina o conformismo.

Bem sei que, ao leres o que te escrevo, te estás a perguntar por que te faço perder tempo se tudo está bem… mas não, Pai Natal, não está. Decidi escrever-te não para te pedir brinquedos ou doces, mas sim algo um pouco diferente, algo que não vem embrulhado, mas que pode transformar o nosso futuro.

Eu quero ser mais inovador e competitivo, Pai Natal. Quero estar presente na vanguarda daquilo que define os próximos passos na nossa sociedade, nas mais variadas áreas. Quero potenciar o talento que nasce nas minhas universidades e ajudar os jovens empresários que arriscam e começam a sua própria aventura em busca de mais geração de emprego e competitividade global. E, acima de tudo, não quero ser só o país do sol e da comida, quero ter uma economia forte, competitiva e que orgulhe os meus cidadãos.

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No outro dia tive acesso ao Índice Global de Inovação 2023 e verifiquei que estou em 30º lugar no ranking global de inovação a nível mundial. O ranking contempla diversas variáveis, como por exemplo, o ambiente institucional e regulatório, a educação e políticas de I&D, as infraestruturas de informação e tecnologia, o nível de investimento, o nível de conhecimento nas organizações, entre outros… Para além disso, olho para os meus colegas europeus e vejo que, por exemplo, a Suécia ultrapassou os Estados Unidos da América no 2º lugar, estando apenas atrás da Suíça. A Finlândia aproximou-se do top 5 e a França após chegar ao top 15 em 2020, chegou agora ao 11º lugar, aproximando-se a passos largos do top 10.

Porque é que estou tão atrás, Pai Natal?

Escrevo-te não com o objetivo de obter, e muito menos no imediato, o nível de investimento Sueco em Investigação e Desenvolvimento, que ronda, por ano, mais de 3% do PIB, ao passo que por cá, em 2022, foram uns meros 0,34%. Também não pretendo de forma alguma comparar o nível de investimento em Venture Capital com a França, que na primeira metade de 2023 contava com 5B€, enquanto que por cá foram investidos 972M€ ao longo do ano de 2022. O que tenciono é um ambiente onde a ambição de lá chegar possa proliferar.

Obviamente que me orgulho das medidas que tenho implementado nos últimos anos, como os Programas de Incentivo Financeiro, do qual é exemplo o Portugal 2020 (ainda que com os seus muitos desafios burocráticos), a criação da Startup Portugal que faz um trabalho incrível na dinamização de iniciativas que promovem o empreendedorismo nacional com medidas como o Startup Voucher e o Vale Incubação. A Rede Nacional de Incubadoras oferece aos empresários uma linha de suporte contínua e essencial quando se está a dar os primeiros passos. E depois há o Web Summit, que todos os anos me coloca no radar do Mundo (até tu deves ver nas notícias, não?) e que atrai investimento, talento e uma dinâmica efervescente de inovação.

Mas sinto que isto não chega.

Não quero prendas fúteis e guloseimas temporárias. O que realmente quero é uma mentalidade mais ousada e políticas que incentivem verdadeiramente o espírito empreendedor.

Peço-te ajuda para a colaboração entre centros de conhecimento e empresas, na implementação de temáticas educacionais que estimulem o pensamento disruptivo desde cedo e uma mãozinha grande nos incentivos fiscais para startups de forma a potenciarmos o crescimento destas novas e inovadoras empresas.

Posso contar contigo, Pai Natal?

PS: Sabes onde me encontrar, na lareira do costume.

Obrigado,

Portugal.