É uma antiga tradição portuguesa: só reconhecemos a verdade quando ela nos chega aos ouvidos em francês. O bom e velho Eça de Queirós já reconhecia que “a nossa arte e a nossa literatura vêm-nos feitas de França, pelo paquete, e custam-nos caríssimo com os direitos de alfândega”, e reconhecia: “Eu fui educado, e eduquei-me a mim mesmo, com livros franceses, ideias francesas… ideais franceses. Da gente portuguesa conheço apenas a alta burguesia de Lisboa – que é francesa – e que há-de pensar à francesa, se algum dia vier a pensar”.

Vamos, então, pensar à francesa, o que é sempre melhor do que não pensar. Para isso, basta pegar no exemplo do muito português Pedro Marques. O cabeça de lista do PS ao Parlamento Europeu entusiasmou-se há dias com o debate entre os dois candidatos à presidência da Comissão Europeia, Manfred Weber (que falou em inglês e, sendo do PPE, é um terrível neoliberal-extremista-populista-quase-fascista) e Frans Timmermans (que falou em francês e, sendo do PSE, é um adorável humanista-progressista-amigo-dos-pobres). Aliás, Pedro Marques entusiasmou-se tanto que se enganou duas vezes. Num tweet infeliz, escreveu primeiro que Timmermans propusera um “salário mínimo europeu” quando, na realidade, ele defendera apenas “salários mínimos para todos os europeus” — não é um detalhe, especialmente para quem se orgulha de ter no currículo político “contas certas”.

O segundo engano foi mais interessante. De acordo com Pedro Marques, no debate Timmermans disse “não aos extremismos” — quando, na realidade, o que ele disse foi “não às coligações com extremistas”. De qualquer forma, o mais relevante não é isso. O que realmente importa é saber quem é que Timmermans considera “extremista”. No debate, o candidato dos socialistas europeus falou sobre a extrema-direita, e muito bem — mas não parou aí. A frase foi dita em francês (lá está), mas, ao contrário do que acontecia no tempo de Eça de Queirós, não pagamos direitos de alfândega para a ouvir: “Também não vejo muito bem como se pode trabalhar com o senhor Mélenchon, que quer, também ele, destruir a União Europeia”.

Quem é este “senhor Mélenchon” que quer “destruir a União Europeia”? Trata-se do líder do partido França Insubmissa, que foi eurodeputado até 2017 e pertenceu ao mesmo grupo parlamentar da bloquista Marisa Matias. Trata-se do homem que se sentou ao lado da também bloquista Catarina Martins em Lisboa para assinar “as bases de um novo movimento político para enfrentar a austeridade e os tratados promovidos pelas ‘elites de Bruxelas’” — o movimento chama-se “Agora, o povo” e, como já se percebeu, parte dessa premissa básica do populismo que é dividir o mundo entre o “povo” e as “elites”. Trata-se, enfim, de Jean-Luc Mélenchon, o novo grande amigo do Bloco de Esquerda (depois de Tsipras se transformar num terrível traidor da causa), que participa com entusiasmo e empenho em inúmeras iniciativas do partido.

O aviso do ídolo europeu de Pedro Marques é, portanto, contra o populismo de extrema-direita e, também, contra o populismo de extrema-esquerda. Quando Timmermans diz “não às coligações com extremistas” está a aconselhar que as forças moderadas não se juntem a extremistas como Le Pen e seus aliados, nem a extremistas como Mélenchon e seus aliados. Alguém sabe como é que se diz “geringonça” em francês?