Eutanásia

Compaixão ou impiedade?

Autor
  • Luis Carvalho Rodrigues

Nenhum debate sério sobre a eutanásia pode deixar na sombra este ponto: ao contrário do que é dito, a eutanásia não é um problema de compaixão, mas de interesse. Não de quem parte, mas de quem fica.

A defesa intransigente da vida ou a aceitação do suicídio não definem por si só a civilização ou a barbárie. Cristãos e hindus condenam o suicídio. Os romanos e os samurais japoneses respeitavam-no. Também não é evidente que a razão porque o cristianismo condena o suicídio (porque a vida pertence a Deus e não ao homem que a vive) dignifique quem a aceita. E certamente que o conceito japonês de seppuku não avilta quem o pratique.

O problema central da eutanásia não é, porém, o problema do suicídio. É um erro deixar que a discussão sobre a eutanásia se centre na pessoa que quer morrer, ou pede para morrer. Os que são a favor evocam a “liberdade de morrer”. Os que estão contra agitam o “dever de viver”. Discute-se se alguém pode, por razões filosóficas ou religiosas, impedir outra pessoa de morrer, e está bem de ver que, posta assim a questão, mesmo os mais fervorosos crentes terão dificuldade em defender que se deve forçar alguém a viver. A discussão, contudo, assenta numa falácia, porque, na eutanásia, não se trata de “deixar morrer” e sim de “fazer morrer”. Não é uma omissão que se pede, mas uma acção positiva.

Quem está em jogo não é, portanto, quem morre mas quem ajuda a morrer. O que está em questão não é o direito a morrer da pessoa que sofre; são as motivações de quem ajuda a morrer. Nenhuma discussão séria sobre a eutanásia pode deixar na sombra este ponto: ao contrário do que geralmente é dito, a eutanásia não é um problema de compaixão, mas de interesse. Não de quem parte, mas de quem fica. Nos Países Baixos, onde a eutanásia é legal desde 2002, a verdade começa a emergir: já não são os doentes em sofrimento que são eutanasiados, mas os velhos, os fracos e os pobres de espírito. E já não é necessário que o próprio o queira porque a vontade pode ser presumida por terceiros.

Há e houve sempre culturas assim, em que os velhos são deixados morrer e os fracos são eliminados. São culturas da escassez, onde a impiedade é condição de sobrevivência e a vida não ultrapassa o estado de necessidade. Não é essa a nossa herança. A sacralização da vida não é uma bizarria. É um dique contra a barbárie. Lamento os que sofrem. Mas preocupam-me mais os que, em nome deles, hão-de a seguir ser eutanasiados pelas razões do costume: custos, falta de tempo, comodidade.

PS – Sobre este tema, é imperativo um referendo. A decisão não pode ficar entregue a 230 pessoas que nunca disseram o que pensam sobre este assunto e de quem, em muitos casos, é lícito suspeitar que não pensam.

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