Os últimos tempos têm trazido algumas evoluções interessantes em instituições conservadoras.

Comecemos pela monarquia britânica. Com o casamento do Príncipe William, os Windsor já tinham seguido o exemplo de quase todas as demais casas reais europeias e permitido o casamento de um futuro rei com uma plebeia gira (ou, no caso de Vitória da Suécia, com um plebeu giro). Lá se aceitou que um rei deveria ter direito a uma vivência familiar mais saudável do que manter um casamento de conveniência com uma senhora apropriada e divertir-se lateralmente com uma ou várias amantes. (Também se percebeu que atualmente há escassez de senhoras apropriadas dispostas a abdicarem de vida sexual e afetiva em prol da coroa e da diversão do marido.)

Mas o casamento do Príncipe Harry – neto da rainha e filho do próximo rei – subiu vários degraus. A família real britânica acolheu uma americana divorciada birracial. Para cúmulo, a nova duquesa de Sussex foi atriz e é feminista. Na sua página no site da família real está em destaque a já famosa frase proferida no discurso na ONU ‘tenho orgulho de ser mulher e feminista’. (Lamento se provoquei em algum leitor constrangimentos só passíveis de resolução com uma manobra de Heimlich.) Refere-se até, lá pelo meio da realeza britânica, produtos de higiene menstrual. Tudo porque Meghan Markle apoia uma fundação que os fornece às mulheres indianas sem dinheiro para os comprar.

Passemos para vários graus hierárquicos Igreja católica. Depois do julgamento em Espanha dos cinco violadores da miúda de dezoito anos numa festa de San Fermín, com os juízes a recusarem aplicar a pena para violação (foram condenados apenas por abuso sexual), um grupo de freiras carmelitas espanholas solidarizou-se com a vítima – e, na verdade, com todas as mulheres que não vivem reclusas num Carmelo mas que têm vida social e fazem por se divertir sem estarem sujeitas a violência sexual. O Papa Francisco (sempre ligado ao que é essencial na religião católica) disse por estes dias a um gay que Deus o tinha feito assim e o amava como ele era.

Há semanas, no colégio dos meus filhos, o padre diretor fez na igreja uma missa explicada aos petizes em preparação para a primeira comunhão. As crianças eram chamadas para participar em cenas explicativas dos vários momentos litúrgicos. Chamou grupos de doze de cada vez (os discípulos): seis rapazes e seis raparigas. Não me pareceu uma mensagem subliminar de apoio à ordenação de mulheres, mas sem dúvida pretendia mostrar que as meninas participam como os meninos em tudo, até nas situações em que, no passado, se escolhia registar para a posteridade os homens existentes num grupo que se sabe historicamente ter sido dos dois sexos.

É um regalo ver estas instituições conservadoras atualizando-se (mesmo se em ritmo glaciar) e mostrando que, sem comprometer a raiz, procuram oferecer respostas para o mundo no ano da graça de 2018. E que essas respostas não passam por um imobilismo intransponível, um regresso a um passado supostamente dourado ou, pior, na cristalização de regras mais draconianas que as seguidas pelos nossos mais bárbaros antepassados.

A diferença entre a sabedoria destes conservadores e o que se passa na atual direita americana – replicada em bolsas na Europa e que nos deu o Brexit (ah, a ironia) – é avassaladora. A direita isolacionista britânica que votou contra os estrangeiros exóticos nas ilhas de Sua Majestade evidentemente enxofrou-se com uma Meghan Markle na família real. Foram divertidíssimos os memes que circularam pelas redes sociais com os furiosamente indignados comentários racistas do Daily Mail.

Incrivelmente, porque há indícios de duas rainhas inglesas, Charlotte de Meklenburg-Sterlitz e Philippa de Hainault, terem sangue mouro do norte de África e pele mais escura. As misturas entre culturas que fizeram a história desde sempre são agora vistas como anti naturais e objetáveis.

No outro extremo social a objeção foi mais na linha da descrita por Nancy Mitford em Love in a Cold Climate. A boa sociedade desconfiava que as raízes da personagem Lady Montdore eram ‘quite low or transatlantic’. E a origem da duquesa de Sussex é sem dúvida transatlântica.

Esta mesma parte da direita vive em permanente guerra apoplética com o feminismo e com os gays. Como se viu perante a reação aos movimentos Me Too e Time’s Up, a manutenção da impunidade dos abusos e assédios sexuais é um dos seus objetivos políticos. Entre as medidas mais aplaudidas pela base de apoio evangélica de Trump estão sempre as referentes a limitações a gays (desce-se alegremente a perder tempo com pastelarias) e aos impedimentos no acesso a contraceção pelas mulheres.

Não sei o que prevalecerá à direita. Mas sabe bem ter novos aliados a medir forças com as hostes regressivas.