Durante a última semana, lembrei-me de António Costa, há uns anos num Congresso do PS, avisar que “ainda não tinha metido os papeis para a reforma.“ Na altura, especulou-se que seria uma resposta ao protagonismo e ao discurso mais ousado de Pedro Nuno Santos. Não se tem a certeza, mas Costa sentiu a necessidade de enviar um aviso.

Lembrei-me do aviso de PM, depois de assistir ao protagonismo de Fernando Medina e de PNS durante as últimas semanas. Depois de ter aparecido na fotografia sobre a realização da Champions de futebol em Portugal, atribuição que deveria ter sido a garantia da segurança sanitária no nosso país, Fernando Medina criticou a ministra da Saúde do governo do seu partido pela incompetência na luta contra a pandemia.

O autarca socialista sabe do que se passa na grande Lisboa e tem que se proteger por causa do seu futuro político, e especialmente das suas ambições dentro do seu partido. Tal como António Costa, o qual parece que olha para Medina como um bom sucessor, o Presidente da Câmara de Lisboa também se “irritou” com a ministra da Saúde.

Por seu lado, Pedro Nuno Santos usou a TAP para reafirmar as suas ambições à liderança do PS. Os sonhos do Pedro Nuno vão custar milhões aos portugueses. Se o governo tivesse ajudado a TAP em Abril como fez o governo espanhol com a Iberia, a conta final seria bem mais reduzida. Mas, desde o início, a questão da TAP foi sempre uma oportunidade para PNS demonstrar a sua força política. O seu discurso populista (“se o Estado mete dinheiro, manda”), com ataques aos estrangeiros e contra o “privado”, foi para mostrar aos camaradas que com ele na liderança, quem se meter com o PS, leva. E nós sabemos como o discurso do “levar” e do “malhar” é popular nas distritais socialistas. Algumas intervenções do ministro Santos fazem lembrar os discursos de Luís Filipe Vieira nas Casas do Benfica.

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A sua ambição e o seu radicalismo levaram PNS a cometer um enorme erro: o seu futuro político passa a estar ligado à recuperação da TAP. É um enorme risco e vai precisar de muita sorte. PNS vai começar por perceber o que custa negociar um plano de restruturação com a DG Concorrência. Os desempregos da TAP serão os seus desempregos. Vai passar mais tempo a negociar com os sindicatos da TAP, quantos são, mas de dez não é?, do que em almoços e jantares nas distritais do PS. E as dívidas da TAP no futuro serão as suas dívidas. A partir de agora, PNS é o ministro da TAP. Tudo o resto fica para os secretários de Estados.

Tenho a impressão de que António Costa deu corda ao PNS e deixou-o ir a fundo até ao fim. Agora o ministro tem o que quis, a TAP. Costa não terá qualquer complacência. Vai fiscalizar o seu ministro e se ele falhar, terá à sua espera uma travessia do deserto político. O futuro do ministro Santos está nas mãos do PM. Desconfio que Pedro Nuno percebeu no que se meteu na conferência de imprensa em que anunciou a solução para a TAP. Aquela conferência foi um dos maiores desastres de comunicação política que se viu em Portugal nos últimos anos.