Rádio Observador

Jornalismo

Das “fake news” aos “fake comments” /premium

Autor
266

A presidência de Trump teve o efeito de trazer para a luz do dia o sectarismo e a vulgaridade de uma elite despeitada por os cidadãos americanos terem votado contra as suas instruções.

A primeira regra do jornalismo actual é esta: seja o que for que o presidente americano Donald Trump diga ou faça, o contrário é que está certo – seja o que, em cada momento, for o contrário.

Há uns meses, Trump ameaçava o ditador da Coreia do Norte com um botão nuclear maior do que o dele. Que louco, que criminoso! Não sabia ele que o mais importante, numa situação de confronto, é continuar a conversar e a negociar, mesmo que os acordos em cima da mesa não sejam muito bons? Que é um perigo encurralar Kim Jong-un? Que desconsiderá-lo só por ser um ditador é até ilegítimo, porque não compete a nenhum país escolher os líderes e os regimes dos países com quem tem de se entender?

Mas isto, como já disse, era há uns meses. Porque na terça feira, Trump viajou até Singapura para conversar, negociar e tirar a foto da praxe com o ditador norte-coreano. Ah, o que foste fazer, grande louco e criminoso! Não sabe Trump que é um perigo dar a Kim Jong-un qualquer destaque? Que nunca devia ter aceitado conversar e negociar, a não ser sobre um compromisso firme e claro? E que vergonha encontrar-se com um ditador, quando devia estar a fazer tudo para mudar o regime!

A partir daqui, posso antecipar os comentários da imprensa à eventual notícia de que, afinal, o entendimento desta semana não deu frutos: como é que foi possível deixar escapar esta grande oportunidade para resolver a tensão na Península da Coreia? Não percebeu Trump a ocasião histórica criada pela disponibilidade de Kim Jong-un para se encontrar com ele? Que louco, que criminoso!

Tínhamos as notícias falsas. Agora temos isto: os comentários falsos, isto é, comentários que não têm nenhum fundamento, a não ser a má-vontade. A imprensa americana e internacional não se dá conta de que, na sua sanha de recusar a Trump qualquer razão ou legitimidade, está a reduzir a análise a uma birra incoerente — se Trump não conversa com Kim Jong-un, devia conversar; se conversa, não devia conversar. Há quem, dramaticamente, ache que o jornalismo corre o risco de morrer com Trump. Steven Spielberg até fez um filme por causa disso (The Post). Mas se esse receio tem alguma razão de ser, é porque demasiados jornalistas abandonaram qualquer pretensão de objectividade a favor de uma lógica de guerra civil, que os tornou uma espécie de espelhos do que eles próprios dizem ser Trump. Nada há de mais parecido com o trumpismo do que o anti-trumpismo.

Os ícones das letras e das artes que outrora era suposto representarem a opinião bem pensante escorregam alegremente pela mesma ladeira. Há dias, foi o actor Robert de Niro quem, numa cerimónia pública, resolveu berrar duas vezes “Fuck Trump!” Mas não era Trump o único responsável por introduzir a ordinarice na vida pública? Talvez a presidência de Trump tenha tido o efeito de trazer para a luz do dia o sectarismo e a vulgaridade de uma elite despeitada por os cidadãos americanos terem votado contra as suas instruções. Afinal, quem é que se dá mal com a democracia?

Há muito que questionar na política americana. Trump decidiu fazer de conta que os EUA não têm amigos, mas apenas interesses, e que o que importa não é a estabilidade de alianças históricas, mas a oportunidade de acordos vantajosos. É uma revolução inquietante, não porque seja agora histrionicamente protagonizada por Trump, mas porque prolonga tendências já visíveis em Barack Obama. Vão os EUA desistir do tipo de liderança a que habituaram o mundo desde 1945? Infelizmente, a comunicação social conseguiu criar uma cortina de fumo que impede qualquer discussão. Desconfio que Trump agradece.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Política

O país onde a política morreu /premium

Rui Ramos

As más finanças, a estagnação económica e o envelhecimento demográfico tiraram oxigénio a tudo o que relacionávamos com direita e esquerda em Portugal. Há apenas governo e oposição.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)