Creio que ser Mulher é muito mais do que uma palavra ou mera condição. É uma vivência.

Começa nas pequenas coisas.

Quando és mais nova, perguntas-te: porque te dizem isto a ti e não a ele, ao teu irmão e ao teu primo? Somos todos iguais, não?

Enfim, tentas ignorar até teres idade para andar na rua e começam os avisos. Porque é que me avisam a mim para ter cuidado? Porque não respeitam os outros a minha liberdade? Porque tenho de ouvir o que oiço na rua?

Quando começas a pensar mais sobre isto outra vez, dizem-te que já se andou tanto, já se conseguiu tanto!

Mas a verdade é que continuam a ser Elas as vítimas prediletas da violência, do abuso, da discriminação.

Dizem-te que chegámos tão longe mas não compreendes então as notícias de todos os dias.

Abre o noticiário a estória do marido que encharcou a mulher de gasolina e quase a matou, deixando-a de tal forma queimada que nunca mais será a mesma. Os vizinhos nunca souberam de nada. “Pareciam tão felizes…”, dizem eles.

Depois vês as estatísticas. Se são assustadoras por si só, outra coisa é ainda mais angustiante: são apenas estatísticas. Para haver estatística é preciso saber-se, é preciso que se tenha denunciado. O que te assusta, na verdade, é, afinal, o silêncio.

Se as estatísticas são assustadoras, mais assustador é pensar na quantidade de pessoas, mulheres e homens, que vivem hoje em relações violentas, que começam no namoro, no ciúme extremo, no controlo excessivo.

Assustador é pensar quantas delas conheço sem saber o que vivem. Porque vivem no silêncio.

Mas a lei protege-as, cremos. E os tribunais?

Um juiz desembargador (e uma juíza!), em 2017, assinaram um Acórdão onde dizem que um homem que desferiu uma pancada com uma moca de pregos na cabeça de uma mulher é portador de diminuta culpa, pois a agressão ocorreu num contexto de adultério praticado por aquela mulher. E o adultério é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem!

Todos se indignaram com a invocação de passagens bíblicas para desculpabilizar este homem.

Todos ficaram ultrajados e indignados. Convocaram-se manifestações. Acordou-se, uma e outra vez, para o problema.

Afinal, quem nos protegerá?

Mas e nós? Não são essas mesmas pessoas, indignadas e ultrajadas, as mesmas que ouvem os gritos e os empurrões na casa ao lado e aumentam o som da televisão?

O que fazem eles e elas? O que fazemos nós?

A preocupação mediática dissipa-se depois em datas especiais. Todos se mostram preocupados, o presidente disto e daquilo, o comentador e o político.

Mas não temos todos responsabilidade de fazer alguma coisa? De quem é a culpa e como podemos ajudar?

Vêm depois os intelectuais dissertar: o que está na origem da violência?

Dividem-se, criticam-se mutuamente. E enquanto os pensadores se dividem, entre teorias e estudos, entre direita e esquerda, os mortais ignoram. Tudo fica na mesma.

Temos filhos. Ensinamos o que aprendemos. Não nos preocupámos. Olhámos para o lado. Tudo se repete.

E continuamos a ser acordados com a notícia de que mais uma mulher foi morta.

Surpreendemo-nos, indignamo-nos. E seguimos com as nossas vidas.

Não devia ser este o dia em que percebemos que todos temos de mudar se queremos parar de nos surpreender?