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Diagnosticar é sinónimo de uma contribuição efetiva para a melhoria das decisões de saúde em que os resultados dos diagnósticos in vitro desempenham um papel essencial ao longo de quase todo o continuum dos cuidados de saúde. Mas ainda há muito que se pode fazer para aproveitar, em pleno, o potencial da inovação do diagnósticou.

Se dúvidas houvesse, os últimos anos mostraram que o diagnóstico tem um papel fundamental na medicina atual. Afinal, cerca de 70 por cento das decisões clínicas são baseadas nos resultados do diagnóstico in vitro. Mas, claro, é possível continuar a fazer mais e melhor. E, para isso, é essencial apostar na inovação e nas novas ferramentas que o diagnóstico oferece, contribuindo para uma medicina mais personalizada.

A literatura existente confirma isso mesmo, conforme está bem patente no relatório da NOVA-IMS “Valor em Saúde: o caso de estudo dos diagnósticos in vitro”, apresentado em julho deste ano. Vejamos, por exemplo, o caso do Cancro do Colo do Útero. A testagem de papilomavírus humano (HPV) para o rastreio deste tipo de cancro tem tido um forte impacto na redução da incidência (em 30 por cento) e na mortalidade da doença (70 por cento), além de uma redução de custos em 24 por cento para o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Porém, a pandemia trouxe consigo consequências que irão fazer sentir-se a médio prazo. Em 2020, foram realizados menos 29 milhões de testes de diagnóstico, numa redução de 30 por cento em relação ao ano anterior. Entre eles, foram feitos menos 140 mil rastreios ao cancro do colo do útero e menos 125 mil pessoas fizeram exames para deteção do cancro colorretal. Rastreios importantes para a deteção precoce de situações de saúde potencialmente graves que a médio e longo prazo terão um enorme impacto para as pessoas, para a economia, para o país.

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A introdução de inovação nos diagnósticos pode possibilitar poupanças reais ao Serviço Nacional de Saúde, melhorando, ao mesmo tempo, a prática clínica. Contudo, apenas 2 por cento do investimento ou gastos da saúde são realizados na área dos diagnósticos. Tendo em conta o impacto que os diagnósticos têm quer para o cidadão, quer para a sustentabilidade do sistema de saúde e para o País, é necessário pensar em estratégias e em medidas a longo prazo, considerando um maior investimento no sector.

É sabido que um bom sistema de saúde tem de ser economicamente viável. Por isso, acredito que é altura de tirarmos o diagnóstico dos bastidores para o colocar na linha da frente das estratégias e decisões sobre a saúde, quando olhamos para o seu importante impacto social e económico.

Mas as entidades ligadas ao diagnóstico enfrentam desafios que podem condicionar a sua contribuição, nomeadamente a implementação da contribuição extraordinária sobre os fornecedores da indústria de dispositivos médicos e de diagnósticos in vitro do SNS aprovada em Orçamento de Estado de 2020, que pode de facto afetar a competitividade e sustentabilidade destas empresas, além da capacidade de introdução de inovação.

Começam agora a ser discutidas as linhas estratégicas para o Orçamento de Estado para 2022 e é imperativo que esta questão seja ponderada, de forma a que possa haver negociações entre o Governo e a APIFARMA, enquanto entidade representante das empresas de diagnóstico, para que se encontrem caminhos e sejam implementadas medidas que conduzam a uma ótima aplicação desta taxa extraordinária.

Será importante ouvir os vários atores, passando pela indústria, governo, autoridades de saúde e entidades públicas, para que se possa construir um diálogo abrangente e profícuo, de colaboração entre todos. Só assim conseguiremos dar uma resposta verdadeiramente eficaz aos vários desafios que vivemos.

É essencial manter um debate alargado entre os diversos intervenientes. Porque sabemos que quando o diagnóstico não é bem feito, a saúde do doente é colocada em causa e, com isso, desperdiçam-se recursos, com maiores custos associados.

Espero, sinceramente, que este período de debate que agora se aproxima contribua para que se olhe para o devido valor do diagnóstico para o cidadão, para a saúde, para o país.  Para que se procurem formas de potenciar de forma eficaz e efetiva o seu acesso. Para que se avaliem as medidas que atualmente aportam um elevado nível de incerteza para as empresas com um impacto que se pode reflectir nos doentes e na sociedade.

Para os ganhos que traz. Ganhos na saúde. Ganhos económicos e sociais. Ganhos para todos.