Numa altura em que estamos todos tão familiarizados com o uso da máscara, o Bloco de Esquerda acaba, mais uma vez, de deixar cair a sua. Mariana Mortágua afirmou que Mário Centeno não tinha “condições políticas para ser nomeado Governador do BdP”, todavia o Bloco não bloqueia. O PSD também não concorda com a ida de Mário Centeno para o BdP mas, aparentemente, também não discorda.  Aliás, o PSD parece querer convencer-nos que a sua sigla significa Partido Socialista Dois.

Mário Centeno abandona o cargo do Ministro das Finanças e Costa Concordia… perdão, e  Costa concorda. Não sei porquê, veio-me à cabeça a imagem de um navio a naufragar e o seu capitão ser o primeiro a abandonar a embarcação. A navegação, ainda que titubeante, fora em águas favoráveis o que permitiu a Mário Centeno granjear o apelido de “o Ronaldo das Finanças”. No entanto, quando as águas se revoltaram, perdemos a chance de virmos a ter um “Aeroporto Mário Centeno”.

Ainda que Mário Centeno possa ter o seu reconhecido mérito técnico, e até esquecendo as questões de (crassa) incompatibilidade política, há outra questão que tem ficado engavetada. Presentear com o cargo de Governador do Banco de Portugal quem fugiu quando as marés se apresentam desfavoráveis é um reforço positivo de que vale tudo, é (mais) uma descredibilização da política aos olhos do cidadão. Os partidos à esquerda do PS transformaram-se em mais um grupo de lobbying, trocando silêncios por favores, ainda que com silêncios absolutamente ensurdecedores. O PCP, o último bastião da casmu… perdão, coerência, também baixou o habitual dedo em riste e vendeu-se por mais uma Festa do Avante. Afinal de contas, segundo Jerónimo de Sousa, o BdP é apenas uma “sucursal” do BCE. Diz o ditado que à mulher de César não basta ser séria […], no entanto quando a mulher de César, o primo e o periquito de César se alimentam do mesmo, então não há adágios que nos acudam.

É certo que não me revejo nestes partidos ou que até possam ser a salvação do país, mas Mariana Mortágua já conseguiu dar os seus enaltecidos préstimos ao país enquanto batia num banqueiro. Porque não pegar nessa garra e megafones para apontar as hipotecas em curso do nosso futuro? Não aspiro a ser um Roubini, porém só um cego não vê a calamidade no horizonte.

Temos Pedro Nuno Santos como piloto dum avião a entrar em stall, parecendo esforçar-se para mostrar o seu desconhecimento sobre uma temática que lhe ultrapassa todos os méritos. Por falar em méritos ultrapassados, João Galamba pressiona para a construção de uma inviável fábrica de hidrogénio em Sines, o “maior projecto industrial desde o 25 de Abril”. Mais um projecto rentista ao qual um país remediado como o nosso não se pode dar ao luxo de ter. O Estado afigura-se um negociador que entra para a negociação com a faca e o queijo na mão e sai de lá sem faca, nem queijo, apenas com mais uma factura com o NIF de todos nós.

Entretanto, o Governo anunciou que ia lançar uma ferramenta para monitorizar o que é dito nas redes sociais, vamos todos fazer figas para que não seja um lápis e que este não esteja tingido pela cor azul. Esperemos assim que o livre arbítrio não tome as rédeas na classificação do que é discurso de ódio, como, por exemplo, uma qualquer crítica a quem nos governa.

O barco vai à deriva e andamos quase literalmente a ver os aviões. Os magnatas do céu (perdoem-me a chalaça doce num tema tão amargo) brincam aos milhões como se estes não correspondessem a impostos pagos pelo contribuinte. É do bolso deste que, na verdade, saem todos estes tapa-buracos a que temos vindo a assistir passivamente nos últimos anos.

Metade do ano de 2020 foi para pagar impostos, tendo sido assinalado o dia de libertação dos impostos no passado dia 15 de Junho. Será que queremos mesmo que essa data se vá estendendo ainda mais?

Mas a fiscalidade nem a todos maltrata, soubemos da recente isenção fiscal aprovada em Conselho de Ministros para a realização da Liga dos Campeões. Gostava de dizer que os profissionais de saúde estão novamente de parabéns com este novo prémio, mas custa-me socorrer do sarcasmo nesta ocasião. Também a Festa do Avante não é incomodada pela fiscalidade, parecendo haver um denominador comum em permitir o que não arrecada dinheiro para os cofres do Estado. Ao prescindir desta receita fiscal, o Estado simultaneamente põe dinheiro às cegas na TAP e na Efacec. A cegueira ideológica tem poucos limites, parecendo usar a receita de prescrever antibiótico para um vírus.