Escrevo na sexta. No Sábado de tarde haverá uma manifestação no Martim Moniz. O lema da manifestação, organizada e participada exactamente por quem vocês estão a pensar, é “Não nos encostem à parede”. Julgo que alguns dos manifestantes nem precisarão de se deslocar até ao Martim Moniz: aparentemente, ainda não saíram de lá desde que, em 19 de Dezembro, um grupo de polícias encostou de facto duas dúzias de sujeitos à parede e apreendeu uma pequena quantidade de armas, drogas, produtos roubados e artigos contrafeitos, além de um par de cidadãos procurados ou suspeitos.
Políticos de esquerda, “jornalistas” de esquerda e outras criaturas naturalmente de esquerda e relativamente públicas andam há quase um mês a divulgar nas “redes sociais” fotografias deles próprios em visita turística à popular praça, incluindo “selfies” junto da população residente, assaz evocativas dos retratos em que os colonos de África posavam ao lado dos nativos. Uns tantos, a fim de exibir propensão extra pela multiculturalidade, mostram-se a sorrir de inexcedível satisfação nos restaurantes locais. E se é agradável descobrir parceiros de devoção pelo caril e pelo piripíri, as especiarias supremas, receio que nem todos possuam estômagos habilitados.
Os multiculturalistas que, por dificuldades de agenda, geografia, vontade ou digestão, não foram ao Martim Moniz em carne e osso, pairam por lá em espírito. Distraídos do “genocídio” em Gaza, não param de falar da intervenção policial, que consideram o momento mais vergonhoso da história do regime, quiçá da nação. Certas almas sensíveis, e particularmente sensatas, chegaram a comparar o sucedido ao Holocausto, que como se sabe consistiu em averiguar se os judeus da Europa ocupada traziam navalhas e haxixe.
É interessante notar que a sensibilidade dessas almas não se manifestou, literal e figurativamente, aquando de operações similares, no Martim Moniz e onde calhou, sob a vigência de governos socialistas. Decerto, e para citar a sempre pertinente Mariana Mortágua, as operações em causa não se enquadravam na corrente “campanha racista” e “de ódio”. Só o racismo e o ódio justificam que as autoridades provoquem semelhante alarido numa zona que, ao longo de dois anos inteirinhos, apenas testemunhou 52 crimes violentos, centenas de casos de desordem e, as fontes variam, talvez um homicídio. Ou seja, uma manhã sossegada nos melhores bairros de Caracas. “Não há associação entre criminalidade e imigração”, diz a dra. Mariana. O que às vezes parece haver, e a dra. Mariana não diz, é uma associação entre criminalidade e determinadas ruas cujos transeuntes e habitantes são, em razoável medida, imigrantes. Admito que se trate de acaso.
A realidade é fértil em acasos. No Reino Unido, e sem dúvida casualmente, pelo menos entre 1997 e 2013 gangues traficaram, torturaram e violaram milhares e milhares de meninas “brancas” nascidas no que antigamente se chamava as classes baixas. Por acaso, os gangues eram compostos quase na totalidade por paquistaneses e na totalidade por muçulmanos. Por acaso, polícias, juízes, administração pública, políticos e “media” desvalorizaram o assunto, abafaram o assunto e conspiraram para intimidar os escassos excêntricos que achavam o assunto relevante, incluindo, com cínica frequência, as vítimas. Por acaso, sucessivos relatórios e inquéritos oficiais foram iniciados e concluídos sem consequências notórias, excepto a noção de que as atrocidades ficariam na vasta maioria sem castigo. Por acaso, somente uma percentagem residual dos criminosos foi condenada, poucos aqueceram uma cela prisional e, ao que consta, nenhum acabou extraditado. Por acaso, por boa parte do período em questão o responsável pela investigação dos crimes públicos era Keir Starmer, entretanto promovido a primeiro-ministro de um governo que prende perpetradores de frases “ofensivas” na internet. Por acaso, a portentosa miséria moral de tudo isto, que a lenda do convívio harmonioso de culturas distintas esmagou e esqueceu, regressou à actualidade após uns “tweets” recentes de Elon Musk, que o sr. Starmer se apressou a integrar na “extrema-direita”. Por acaso, chegamos a um tempo em que discordar da violação em massa e impune de crianças e adolescentes é ser de “extrema-direita”, logo “racista”, logo “fascista”, logo – cá vai – “Hitler”, o exacto “Hitler” que apoia o aumento da segurança no Martim Moniz.
Mas não é por acaso que misturo ambos os temas. Nos últimos dias, muitos dos cavalheiros e das senhoras que daqui a horas se manifestarão em Lisboa não deixaram, nos intervalos do kebab, de repescar o escândalo britânico para reproduzir – nos jornais, nas televisões, nas “redes sociais” – os argumentos (digamos assim) dos trabalhistas: o problema não é a violação social e racialmente selectiva de menores de idade e a respectiva cumplicidade dos diversos poderes, e sim o “aproveitamento” que Musk e a “extrema-direita” fazem de tal insignificância. É essa gente que hoje vai desfilar a partir da Almirante Reis, a soltar guichos alusivos à “injustiça” e à “discriminação”, ao “medo” e à “vergonha”, ao “racismo” e aos “direitos humanos”.
Não vale a pena notar que essa gente, cá e lá, é doentiamente hipócrita e, suspeito, sinceramente doente. Vale a pena notar que essa gente, que escorre virtude postiça e desumanidade autêntica, despreza por cálculo as infelizes estupradas como, se lhes convier, despreza os imigrantes decentes ou os demais objectos da sua oportunista atenção. O apreço dessa gente esgota-se naqueles, e naquilo, que ajudem a destruir a sociedade que temos, a vida que levamos, as pessoas que somos. O sonho deles é encostar o nosso mundo à parede, e disparar de seguida. A fúria “inclusiva” não nos inclui.