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Entre as coisas que há vantagem em encorajar nos outros, e em especial nas crianças, uma das mais importantes é o talento ou a paciência de estar em minoria. Não quer isto dizer que haja qualquer coisa de inerentemente meritório na ideia de se estar sozinho, ou pouco, ou mal, acompanhado, contra a opinião de toda a gente.  É possível estar em minoria por uma razão disparatada e é possível que em muitos casos, e porventura na maioria dos casos, as maiorias tenham razão.

É também o caso que muitas coisas importantes não são nem podem ser decididas por maioria. As frases ‘O gato está no mato’, ou ‘Não matarás’ são verdadeiras ou falsas independentemente do número de votos que cada alternativa recebe em cada momento. Estar em minoria não é porém importante por causa das coisas importantes que nenhuma maioria pode decidir.

Uma razão por que estar em minoria é importante é em parte, embora não na parte mais importante, a de que aquilo que é geralmente encorajado pela maioria é estar em maioria. De facto, estar em maioria tem vantagens. Poupa-nos ao esforço de explicar porque concordamos com aqueles com quem estamos. Estar em maioria poupa-nos também ao esforço de pensar naquilo que fazemos: porque aquilo que fazemos é muito parecido com aquilo que a maioria das pessoas com quem estamos faz ou faria. Finalmente, estar em maioria dá-nos a satisfação de acertar em todas as opiniões alheias, como quem aposta num número que temos a certeza de que vai ser premiado. No entanto, o prémio por acertar nas opiniões daqueles pensam como nós é baixo; e a vantagem de dizer o que já sabemos que os outros pensam é nula.

A razão mais importante para encorajar a coragem de estar em minoria, e encorajá-la mesmo nas crianças mais pequenas, é que essa posição nos obriga exactamente aos esforços que quem está em maioria não faz. Os principais são o esforço de explicar as nossas opiniões e o esforço de justificar as nossas acções. Tais esforços ajudam a perceber porque pensamos o que pensamos e fazemos o que fazemos.

Bem entendido, esses esforços podem não dar grandes resultados. Há muitos patetas que passam a vida tentar justificar-se sem grande sucesso; e há acções injustificáveis, mesmo pela pessoa mais inteligente do mundo. Aquilo que justificamos é por isso muito importante. Mas há, independentemente do resto, uma diferença entre não conseguir justificar as nossas opiniões e não tentar sequer explicá-las. É a diferença entre ser-se uma pessoa que se engana de vez em quando e por isso tem muito a perder, e uma não-pessoa que acerta sempre e por isso não tem nada a ganhar. A maioria prefere normalmente esta segunda alternativa; a maioria prefere estar em maioria.

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