A oligarquia do PS detesta-o, e engole agora um sapo do tamanho de António Costa (não sei, aliás, se repararam como Costa, do alto da cadeira do Conselho Europeu, optou deliberadamente por não se pronunciar na primeira volta, quando os votos de esquerda faziam falta a Seguro, e resolveu vir a terreiro exibindo o seu voto quando Seguro precisa de alargar a sua base eleitoral à direita, que detesta Costa; um verme é um verme que é um verme). A extrema-esquerda e a esquerda radical detestam-no, não o consideram um socialista, não vêem nele a esquerda que gostariam, acusam-no de ter sido cúmplice de Passos Coelho e da troïka. Lembram-se do que diziam dele Augusto Santos Silva, Mariana Vieira da Silva, Manuel Pizarro, Alexandra Leitão, entre outros? Ou da célebre notícia sobre o temível “jantar de passistas que apoiam Seguro”, noticiado nas vésperas de o PS decidir se o apoiava ou não? Por outro lado, a direita que agora se rendeu a Seguro, por instinto de sobrevivência ou reacção, ainda há pouco mais de uma semana o acusava de ser um socialista, cúmplice de Sócrates e Costa. Ventura tenta agora o mesmo truque, vendo em Seguro o isco de que precisa para ganhar não as presidenciais, mas a sua luta pela liderança do espaço da direita. Tenho pena, mas não estou disponível para nada disto.
Tenho para mim como certo que a esquerda à esquerda do PS abomina Seguro por razões certeiras, que me fizeram apoiá-lo. Como me oferece uma paz enorme de espírito saber que votei e votarei, nestas presidenciais de 2026, no candidato, em onze possíveis, que a oligarquia do PS mais despreza e que a faz sentir-se mais ameaçada. Não é coisa pouca, mas não é o suficiente, bem sei, embora seja muito a partir daqui que qualidades como a independência face ao poder partidário se aferem. E eleger um Presidente da República não é o mesmo que escolher um líder de facção ou um chefe de claque.
O apoio a um candidato presidencial pode nascer de muitas coisas. Da razão, do impulso, da rejeição, da fidelidade, da conjuntura, de interesses pessoais. Pode surgir como reação a uma ameaça, como instrumento de contenção ou como resposta emocional ao medo de rupturas. Em momentos como este, quando a política se enche de súbitos entusiasmos de segunda volta, importa distinguir o voto útil do apoio útil. O primeiro procura vencer; o segundo procura afirmar uma ideia de País, de Estado e de presidência.
É por isso que continuo a acreditar que o melhor critério para escolher um Presidente da República é aquele que mais escasseia no debate público: a cultura institucional, a capacidade de representar o todo nacional e de tomar partido por instituições, pelo primado da lei, pela Constituição, ouvindo igualmente todas as forças sociais e partidárias, e não por interesses ou disputas ideológico-partidárias que têm o seu espaço noutro lugar que não o da Presidência, pugnando por reformas, por mudanças, sem cair no histerismo de achar que Portugal é um País perdido e apocalíptico. O que está em causa numa eleição como esta não é a luta por um espaço partidário, mas a ideia de que o poder presidencial não é um instrumento de intervenção permanente, mas de presença, autoridade e vigilância conciliadoras e que não teme a mudança.
A semana passada revelou o risco de que escolhas importantes como esta passem a ser justificadas apenas por exclusão de partes. Contra isto ou aquilo. Contra este ou aquele. Contra o medo, contra o ruído, contra o ridículo. Mas a cultura democrática não se alimenta de medos, mas de ideias. E um país só será capaz de resistir se os que nele vivem forem capazes de defender, com tranquilidade e coerência, aquilo em que acreditam. Talvez por isso o meu voto esteja decidido desde um tempo em que não havia candidatos anunciados. Não por cálculo, nem por pânico, mas porque reconheço, num dos candidatos, algo que para mim sempre foi essencial: uma noção firme de serviço público, uma relação adulta com o Estado, uma forma séria e digna de estar na vida política, uma concepção de liberdade inseparável da responsabilidade pessoal e uma aversão visceral à instrumentalização da chefia do Estado para projetos partidários, vaidades pessoais ou cruzadas ideológicas.
Boa parte dos eleitores vai escolher nas próximas semanas com base em quem “não querem”, não tenho dúvidas. Eu prefiro escolher com base em quem considero que tem as qualidades certas para exercer a função. Porque não preciso que o Presidente seja o meu porta-voz, o meu agitador, o meu representante político. Preciso que seja o garante institucional do meu País. Que me proteja da instabilidade, do aventureirismo e do oportunismo de todos os campos políticos, que seja, de certo modo, uma reserva moral da República e o primeiro freio à ameaça dos seus vendilhões.
Apoiar alguém apenas por não ser o outro é o reflexo de um sistema cansado de si mesmo. A hiper vocalização elitista e colectiva desse apoio chega a ser um risco político tremendo; a eleição não é sobre apoiantes, mas sobre candidatos. Apoiar alguém por se reconhecer nele uma ideia de país, de decoro e de permanência é uma afirmação política e moral que importa mais do que qualquer combate do dia, incluindo o combate pela liderança política da direita que é para este assunto absolutamente secundário. Há muitas e boas razões para apoiar António José Seguro. Nenhuma delas é André Ventura. Se acham que é, talvez fosse boa ideia limitarem-se a votar em quem querem, sem correr o risco de produzir um resultado diferente do que pretendem. Desculpem lá o paternalismo, mas o tempo não está para brincadeiras.