Isto de ser feminista tem muito que se lhe diga. Quando expliquei às pessoas o que para mim era o feminismo e porque achava que todos deveríamos ser feministas, a Internet não surpreendeu e presenteou-me com muitos comentários sobre as mulheres, o seu papel na sociedade e a minha falta de razão óbvia. Mas se comentadores anónimos na Internet já me fazem alguma comichão, a luta diária com que me deparo é bem mais cansativa e desmotivadora.

Eu sou feminista porque acredito na igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, e que ainda há muito a fazer para a atingir. Mas a partir do momento que me caracterizo como feminista, a sociedade considera-me uma ativista agressiva e irritada. Devo ser anti-homens e pró-mulheres, devo criticar os livros cor-de-rosa, devo indignar-me com as princesas, devo lutar pelos “os/as”. Parece que, tal como toda a vida fui formatada para uma imagem da mulher ideal – magra, maquilhada, com a roupa e os acessórios certos, também há uma imagem da feminista ideal na qual não me pareço integrar.

Aparentemente ser feminista implica uma perfeição constante na defesa incansável dos valores da igualdade. Mas há lutas e causas com as quais eu não me identifico. Pergunto-vos: sou uma má feminista por me parecer completamente aceitável uma mãe chamar “princesa” à sua filha, como já tantas vezes chamei às minhas amigas e provavelmente chamarei à minha filha um dia? Confesso que a minha reação ao ler algumas das críticas à campanha “Opte por amar mais” foi a mesma que tive quando a Catherine Deneuve se insurgiu contra o movimento #metoo porque aparentemente era uma “caça às bruxas” (mas o Harvey Weinstein já está na prisão), ou quando a Disney decidiu eliminar uma das personagens principais do filme Mulan (um dos meus filmes preferidos em criança porque a “princesa” era uma badass que lutava contra as regras, andava a lutar com os Hunos e salvava a China) por ser visto como bissexual: mas está tudo louco?

Ser feminista é uma batalha constante, nunca posso fugir a uma conversa e aparentemente tenho de ter as respostas todas para tudo. Por ser vocalmente feminista, dou por mim a ter de me justificar constantemente, os meus ideais, as minhas escolhas, até a minha roupa. Já me chegaram a dizer que me vestia de uma maneira demasiado feminina, que isso compactuava com a visão machista da sociedade. Sim, tenho uma coleção de saltos altos que vai ficando sem espaço em casa, gosto de ler a Vogue todos os meses e ser mãe sempre foi um desejo. E sim, é possível apanharem-me a cantar ao som de uma música na rádio cuja letra ataca todos os meus valores porque o som até fica no ouvido.

O movimento feminista, por ser composto por humanos, terá necessariamente falhas e oportunidade de melhoria. Há um elitismo na discussão que presume que uma feminista é uma mulher trabalhadora independente, que quer singrar na sua carreira e na sua vida pessoal, que luta ao longo da sua carreira para garantir que consegue chegar ao topo e ser um exemplo para as gerações futuras. Toda esta discussão é claramente enviesada para a mulher da classe média-alta, e esquecemo-nos de que a maioria das mulheres que trabalham não o fazem por escolha, mas sim por necessidade, para sustentar uma família. Então e uma mulher que escolhe ser dona de casa, não pode ser feminista?

Desvirtuam-se as discussões e por arrasto desvirtua-se a causa, tão relevante e urgente. O feminismo deve ser um movimento de igualdade e liberdade. Sou uma feminista com f minúsculo. Faço o melhor que posso. Uso saltos altos e maquilhagem e ouço rap. Levanto os temas quando posso e consigo e estou aqui hoje para dizer a todas as outras feministas com medo de se afirmarem que o vosso melhor é mais do que suficiente. Que ser ativista de vez em quando é melhor do que não ser nunca.

Inês Relvas tem 29 anos e é consultora na The Boston Consulting Group. Tem experiência nas indústrias de serviços financeiros, bens industriais e retalho em Lisboa, Madrid, Londres e Luanda. Juntou-se aos Global Shapers Lisbon Hub em 2014. 

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo sobre a inovação social. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.