«Tinha na altura 11 anos de idade quando percebi que ela gostava de mim e tratava-me de uma forma especial, e isso foi bom…. muito bom…. sentia-me diferente, único, mais importante do que todos os outros (…) a pouco e pouco aquela atenção especial começou a tornar-se cada vez mais sexual, toques, carícias, beijos…. até que chegamos ao fim e tivemos relações sexuais (…) no início era um bocadinho estranho, mas era bom ao mesmo tempo, e apenas eu tinha relações com a mãe, mais ninguém! Hoje percebo que fui abusado sexualmente, que não é suposto uma mãe e um filho terem relações sexuais, mas, na altura, até sentia como uma coisa boa, como uma prova da minha masculinidade e de como era mesmo o filho preferido!»
‘João’, 22 anos de idade.

Este é um relato fictício, baseado em muitos depoimentos reais.

Abuso sexual cometido por uma mulher? Uma mãe??

As mulheres são, de uma forma geral, percepcionadas pela sociedade como protectoras, maternais e cuidadoras. Desde sempre associadas ao carinho, ao amor e ao colo, incapazes de magoar, de maltratar e, muito menos, de abusar sexualmente. De uma forma automática, associamos o abuso sexual aos homens. São estes que agridem e abusam. Ainda que de forma inconsciente, o abuso sexual continua a ser associado à existência de um pénis…

As estatísticas mostram-nos que a negligência e os maus tratos, físicos e emocionais são, acima de tudo, perpetrados pelas mães/cuidadoras. Pelo contrário, o abuso sexual surge com maior prevalência associado a perpetradores do sexo masculino. Estas mesmas estatísticas dão-nos conta de números irrisórios, quase inexistentes, relativos a mulheres que cometem este último tipo de crime. Não porque esta realidade não exista, mas sim porque não estamos, de facto, atentos e despertos para a mesma.

Em Portugal, e em muitos outros países do mundo, o abuso sexual cometido por mulheres é ainda um assunto tabu. Faz de conta que não existe. É um ‘não assunto’. Mas existe e tem repercussões significativas. Sejamos realistas. Se uma criança nos diz que dorme com o pai, avô ou tio, há uma espécie de luz amarela, ou mesmo vermelha, que se acende na nossa cabeça. Alerta! Perigo! Se essa mesma criança nos diz que dorme com a mãe, a avó ou a tia ficamos, acima de tudo, preocupados com a necessidade da criança ter o seu espaço, a sua cama…

Em 20 anos de prática clínica e forense avaliei dezenas, centenas, ou mesmo talvez milhares de suspeitas de abuso sexual em que o suspeito era do sexo masculino. Suspeitas de abuso sexual no feminino? Cerca de cinco ou seis. Uma avó, uma ama, uma amiga da família, uma vizinha, uma mãe que engravidou do próprio filho, Sim, uma mãe que engravidou do próprio filho. Pergunto-me. Não existem estas situações, ou não as conseguimos identificar? Onde estamos, enquanto sociedade e sistema profissional, a falhar?

Na perspectiva das vítimas, estes comportamentos surgem, muitas vezes, mascarados com comportamentos de cuidado. As massagens, a brincadeira das cócegas, o banho ou a verificação se está tudo bem com os órgãos genitais. Nem sempre as crianças, especialmente as mais novas, conseguem sequer identificar estes comportamentos como tendo um cariz abusivo. São os chamados comportamentos de duplo significado.

As vítimas mais velhas e, em especial, as do sexo masculino, sentem muitas vezes aquilo que é dito pelo ‘João’. Sentem-se especiais, únicos, e estes comportamentos acabam por ser percepcionados não como um abuso sexual, mas sim como uma prova da sua masculinidade. Ou seja. Temos, por um lado, uma comunidade «cega» face a esta realidade e, por outro, vítimas que nem sequer se percepcionam enquanto tal. Por vezes só anos mais tarde olham para trás e percebem que foram vítimas de abuso sexual.

Neste contexto, é compreensível o baixíssimo número de sinalizações de suspeita de abuso sexual em que o agressor é do sexo feminino. Aa chamadas «cifras negras», ou seja, toda a base do iceberg que está oculta.

Mudar esta realidade implica uma total mudança de paradigma. Implica deixar de ver as mulheres como protectoras inatas e os homens como (quase inatamente também, diria eu) potenciais agressores. Essa mudança implica, igualmente, abandonar os estereótipos em função do sexo e aceitar que homens e mulheres podem ser vítimas ou agressores.

Temos em Portugal um longo caminho pela frente. Porque a legislação não chega. É preciso mudar mentalidades e alterar a forma como as pessoas olham para a realidade à sua volta. Ajudar a despir preconceitos e ideias pré-concebidas. Olhar para as pessoas sem rótulos ou em função das expectativas.

Vamos caminhar por este caminho… e um dia chegamos lá.