Rádio Observador

Racismo

Liberdade de expressão ou violação dos Direitos Humanos?

Autor
  • João André Costa

Distopia é esta vergonha de viver num país e numa língua onde não existe uma palavra para quem tem a pele negra. Preto? É insultuoso. Negro? Negros eram os escravos. Pessoas de cor? É supremacista.

Muito se tem escrito e reescrito recentemente sobre assuntos tão pertinentes como, infelizmente, perenes: do racismo e homofobia à inclusão, da extrema-direita à democracia, da desigualdade de género à paridade, da liberdade de expressão ao politicamente incorrecto, do humor ao politicamente incorrecto, da defesa dos animais e das touradas, da protecção do ambiente e as beatas atiradas para o chão, do que deve ser legal em contraposição ao ilegal e, por conclusão, criminal.

E se por um lado temos todos o direito a expressar pensamentos, atitudes, emoções e modos de ver o mundo, por outro lado, e por uma questão de bom senso, tal só é válido conquanto tais declarações, tais liberdades, não afectem as liberdades dos outros.

É lógico. É legal. É justo, muito justo, é justíssimo. Aprendi na escola.

Baseando-me nesta premissa fundamental, custa-me compreender a liberdade dada pelos média hoje em dia a quem se declara claramente racista, nacional-socialista, homofóbico, misógino, só para citar alguns exemplos entre programas de televisão, artigos em jornais ou na imprensa online, fomentando preconceitos e medos, fechando fronteiras e mentalidades, recusando a diferença num mundo onde, ironicamente, somos todos diferentes e, como dizia a campanha, todos iguais.

A culpa? A culpa vem de cima quando quem governa legitima tais discursos, libertando das profundezas da ignorância humana todos os derrotados de séculos de história.

A culpa? A culpa vem de baixo, de quem vota nestes mesmos governantes ou de quem se abstém de votar.

A culpa é também das desigualdades que fomentam a pobreza e os populismos num mundo onde, se todos vivêssemos condignamente, ninguém se preocuparia com o vizinho do lado, antes pelo contrário. Basta fechar os olhos e imaginar um mundo onde a porta de casa está sempre aberta, onde os meios de produção de alimentos e energia significam 3 dias ou menos de trabalho por semana e para todos, sem campainhas nas escolas e nas empresas, repleto de arte, criação e fruição e onde os governos trabalham em conjunto na conquista do espaço, levando a humanidade mais além.

Este mundo é possível, o século XIX já passou há muito, a tecnologia e a ciência evoluíram exponencialmente e não precisamos de continuar a viver como há 200 anos. Basta vontade política.

Mas não só. É preciso evitar os retrocessos civilizacionais, é preciso evitar e não dar voz a a quem atenta contra o direito à paz, à liberdade, contra o ambiente, contra a fraternidade, contra a autodeterminação dos povos sem esquecer a saúde e a educação, tudo premissas fundamentais dos Direitos Humanos e, no entanto, rapidamente em causa e em dúvida em nome do egoísmo, da individualidade, da opressão.

Porque se discutir ideias é válido, por outro, e espero haver aqui um consenso, já pouco falta para termos na televisão um pedófilo a defender o direito à pedofilia! Ou um violador a defender o direito à violação! E, já agora, um assassino em série a defender o direito a matar.

Uma distopia? Distopia é abrir o jornal nos dias de hoje, não preciso do amanhã. Distopia é esta vergonha de viver num país e numa língua onde não existe uma palavra para quem tem a pele negra. Preto? É insultuoso. Negro? Negros eram os escravos. Pessoas de cor? É supremacista. Coloridos? Não é só insultuoso, é uma piada de mau gosto. E porque não colocar de lado o conceito esclavagista de raça e tratar as pessoas, sim, porque estamos a falar de pessoas, pelos nomes próprios?

Entretanto, e enquanto não chegamos lá, fica aqui o meu apelo aos média: não cedam à tentação do número de leituras online, do share televisivo ou da partilha de artigos nas redes sociais pois o preço a pagar é só um: a promoção de líderes déspotas, líderes esses que não pensarão duas vezes quando chegar a altura de fechar os mesmos média que lhes deram voz em primeiro lugar. Primeiro os média, depois a liberdade.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Animais

Ninguém merece ser cozido vivo, nem um caracol

João André Costa
3.672

E chega. Chega para passar a mensagem e o exemplo quando, em plena época estival, assistimos em cada restaurante, cada café, cada bar e cozinha de Portugal a uma tortura típica dos tempos medievais.

Férias

Amanhã estamos em casa

João André Costa

Esqueci-me da praia ou da cor? Provavelmente das duas. O cheiro do calor, só respiro bem com 35 graus à beira-mar, as subidas de bicicleta à falésia e o mar a meus pés, a casa onde um dia hei-de morrer

Liberdade de Expressão

Quem tem medo de Neto de Moura?

João André Costa

Tenho medo de Neto de Moura porque também eu não sei se a liberdade de escrever, de me expressar, não é susceptível de um processo em tribunal e hoje em dia já não tenho a certeza de nada.

Racismo

O mérito não tem cor de pele nem etnia

João Pedro Marques
381

Os activistas querem implementar quotas e outros mecanismos compensatórios e precisam desesperadamente de argumentos científicos para justificar esse seu propósito. É gato escondido com rabo de fora.

Europa

Para uma etiologia da “política de identidades”

Guilherme Valente

É a ameaça de uma sociedade comunitarista, fragmentada, tribalizada e regressiva que se configura. Anti-humanista e anti-universalista, contra o melhor do espírito europeu. E contra uma Europa unida.

Trabalho

Ficção coletiva, diz Nadim /premium

Laurinda Alves

Começar reuniões a horas e aprender a dizer mais coisas em menos minutos é uma estratégia que permite inverter a tendência atual para ficarmos mais tempo do que é preciso no local de trabalho.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)