Quem está a acabar a licenciatura, cruza-se agora com a necessidade de tomada de uma grande decisão. Prosseguir estudos superiores? Ingressar já no mercado de trabalho, aproveitando o quadro das ofertas que parece viver um momento conjuntural favorável? Aproveitar uma oportunidade de trabalho ou estudo num país europeu?

Estimo que 63 mil alunos, aproximadamente, vão terminar a sua licenciatura em 2023, incluindo aqui cerca de 55 mil licenciados e aproximadamente 8 mil alunos que igualmente terminam os cursos de licenciatura com mestrado integrado. Se descontarmos os alunos mais velhos, e na sua maior parte já inseridos no mercado de trabalho, que voltaram à academia para prosseguir estudos superiores, numa atitude louvável e reconhecidamente meritória, e considerarmos apenas os 112 mil nascimentos no ano 2001 – os que agora maioritariamente terminam estudos – isso significa que cerca de metade dos jovens concluem este nível de ensino (1.º ciclo do Ensino Superior e licenciatura com mestrado integrado), o que já é um marco assinalável para o mosaico do conhecimento e da aprendizagem no nosso país.

Na hora de decidir, terá o finalista de pensar no que verdadeiramente o/a realiza e em que área do conhecimento se vê a produzir bons entregáveis no futuro, colocando os seus conhecimentos ao serviço da comunidade e de um “mundo melhor”. Pensará também em emigrar? Com efeito, nunca a percentagem dos diplomados, de entre os que saem do país, se fixou em valores tão elevados.

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Não é uma reflexão que se apresente fácil de fazer. Será uma reflexão em família e em que os próprios docentes são por vezes também chamados a aconselhar. Continuar a estudar tem custos. Emigrar tem igualmente custos emocionais e familiares; e ingressar no mercado de trabalho exigirá proatividade, determinação e coragem. Desde logo para estar disponível para aceitar uma oportunidade de trabalho que pode estar longe daquela com que se sonhou nas longas noites de estudo e de preparação para exames.

Se a escolha se inclinar para a prossecução de estudos, cumprirá escolher o mestrado ou a pós-graduação que melhor fizer a “ponte” entre conhecimentos já adquiridos, áreas do conhecimento mais desafiantes e complementares às áreas já cursadas ou, mais pragmaticamente, aquelas áreas que o mercado parece estar a valorizar mais.

Se a escolha da licenciatura se baseou mais numa vocação objetiva, provinda já dos tempos do ensino secundário, ou também numa colocação menos desejada, mas com a qual o aluno se conformou, esta escolha agora vai ser bem mais difícil de fazer. Por um lado, não podemos deixar de prosseguir sonhos, obtendo realização profissional e estudando numa área em que as competências detidas poderão fazer a diferença na organização ou empresa em que viermos a trabalhar. Por outro, os que procuram emprego estão quase todos a fazer essa caminhada da valorização dos seus currículos, e a concorrência é forte. Estamos cada vez mais qualificados.

Num primeiro momento da reflexão, é necessário guardar um tempo para celebrar o estádio já conseguido. A licenciatura carrega em si um prémio e um reconhecimento social, mas a primeira vez que alguém lhe chamar “Dr.”, “Eng.º” ou “Arq.” antes do seu nome próprio, isso não significará mais do que responsabilidade. Responsabilidade no que disser, no que fizer, no que opinar, aconselhar, informar ou escrever. E será assim para o resto dos seus dias.

Tudo o que aprender para além da licenciatura, já será mais por gosto e vontade própria e não tanto como obrigação para com os seus familiares e para consigo próprio(a); e por isso tem de querer fazê-lo e tem de valorizá-lo(a) profissionalmente também. Veja isso como um investimento em si e numa carreira mais célere e gratificante em termos remuneratórios também.

Não conte que a prossecução dos estudos, sem mais, seja uma garantia de melhor remuneração ou valorização profissional; mas é indiscutível que intensifica as probabilidades de tal vir a acontecer. Pese embora o prémio salarial de uma pessoa com licenciatura tenha caído, em média, mais de 16% face a quem concluiu apenas o ensino secundário, entre 2006 e 2020, num estudo recente do Banco de Portugal (BdP), o que parece induzir pouco retorno para o investimento nos estudos.

Se a opção passar por inserir-se primeiro no mercado de trabalho, aproveitando as ofertas existentes, e só mais tarde realizar estudos mais específicos em áreas que mais o realizem ou que abram novos horizontes e oportunidades, também poderá ser um resultado aceitável e inteligente da sua reflexão. As conjunturas favoráveis do mercado de trabalho são cíclicas, como se sabe, e é necessário aproveitá-las quando ocorrem.

A licenciatura, como bem referiu Adriano Moreira, é uma “licença de aprendizagem” no mundo do conhecimento para toda a vida. Uma vez licenciado(a) já “não mais se livra” dessa vontade imensa de prosseguir sempre aprendendo e ensinando também, valorizando-se e criando valor e se possível construindo um mundo melhor.

Joseph Stiglitz, nobel da economia, evidencia existir uma correlação entre aprendizagem e melhoria do padrão de vida de uma Nação, mas, para esse resultado ser alcançável, não podemos permitir que não saibamos criar um quadro de oportunidades para metade da nossa massa crítica.