Caro Manuel,

Ao ler o teu artigo estava a ter aquilo a que os ingleses chamam de mixed feelings. Por um lado, várias das tuas ideias e valores correspondiam às que tenho, por outro algo me inquietava. Será que Portugal me tinha falhado? Será que eu, pouco mais velho que tu e tal como tu privilegiado com uma educação de excelência no ensino privado, que pouco esperei em filas de hospitais privados quando estive doente, que sempre tive que comer, casa, uma família com pais e irmãos e oportunidades e atividades em que pude participar, era uma vítima deste “Portugal” que não me ajuda e que não quer que o ajude? Não era possível, e apesar de concordar com muito daquilo que defendes, apresento três críticas à tua carta, e que demonstram por que razão a defesa das preocupações que tu tens – e algumas delas eu também – não passou mas que resultou na critica ou defesa da tua pessoa.

1 Portugal não é sinónimo dos nossos (des)governos. Portugal são os portugueses, os de hoje e os do passado, e que portanto engloba uma História, Tradição, Cultura e área, etc. com que nos identificamos.

Precisamente porque em democracia Portugal somos nós, os portugueses, a nós nos compete decidir que Portugal queremos para o nosso futuro e como o vamos construir. Não compete ao nosso governo fazer aquilo que nós podemos fazer, nem lhe compete meter-se nas nossas vidas no que não é chamado. Não é o nosso governo que nos valoriza, nem as nossas políticas que nos conformam com o status quo. Obviamente, herdámos dos nossos antepassados um legado a ter em conta, que tem tanto de bom como de mau. E somos, também responsáveis pelos partidos em que votamos. No entanto, Portugal não é sinónimo de governo e, por isso, não nos pode falhar, porque cada um de nós constitui aquilo que Portugal é.

Portanto, não faz sentido adereçares a tua carta a Portugal, mas sim ao nosso governo que tanto falha, em especial àqueles que não protege, os idosos e os bebés por nascer, os que vêem as suas vidas destruídas pelos fogos e quem trabalha para comer, os jovens confusos e aqueles que querem começar famílias.

2 No entanto, ninguém te tirou o futuro, tal como ninguém tirou a infância à Greta. A tua vitimização sendo alguém claramente privilegiado num discurso demagogo e populista, destrói pela forma o conteúdo que queres passar.

É verdade que o governo, e não Portugal, pouco ou nada fez por mim ou por ti, tendo em conta aquilo que os nossos pais e famílias lhe dão e que acima de tudo serve para o engordar. No entanto, seria hipócrita considerar queixar-me de não ser livre ou não ter oportunidades. O problema é precisamente que se não tivéssemos nascido onde nascemos, com os pais que temos, o governo nada fazer para dar a liberdade a quem não tem as mesmas oportunidades e circunstâncias, quem não teve a mesma sorte que nós. O governo não deixar as famílias escolherem onde querem que os seus filhos sejam educados, permitindo-lhes frequentar a escola que acharem adequada para o filho, ou que possam ser atendidos quando realmente precisam no estabelecimento de saúde que preferem. Tudo apenas pela utopia de que o estado sabe mais e melhor que os próprios cidadãos o que lhes deve providenciar e como devem escolher, ao bom estilo soviético.

Não faz sentido portanto personificares dificuldades que não são reais pois acabas por cair no ridículo e isso vira as pessoas contra ti sem se quer quererem saber daquilo que tens a argumentar, tomando as tuas ideias pela perceção que têm da tua pessoa e não pela sua substância das tuas ideias, fazendo na realidade um desfavor a quem as tenta defender de maneira séria para poder implementar a mudança em Portugal.

3 Defender a liberdade de escolha e de seguida defender o desejo de um estado providencialista e paternalista que tudo deve dar, inclusive a felicidade, é uma contradição e representa precisamente a razão pela qual “Portugal”, i.e. o nosso governo, não muda. Como demonstras os portugueses tudo esperam do Estado – o nosso legado salazarista agora em formato socialista.

Ficou demonstrado pelos votos nas eleições que os portugueses votam a favor de um estado com mais controlo sobre eles, que escolhe por eles, e que os orienta de maneira paternalista sobre aquilo que devem ou não devem fazer, sem necessidade de explicações sobre os erros que acontecem debaixo do seu domínio nem transparência com os votantes passando leis sobre temas de ordem nacional que não constam nos seus programas. No entanto, apesar de se calhar achares que é “Portugal” quem te deve dar uma vida boa, ou que vai ser ele quem te dará a felicidade, não posso deixar de referir que és tu quem defines a tua vida, e és tu quem pode fazer dela uma vida boa — tendo até a sorte de teres mais liberdade e oportunidades que a muitos o governo continua a não facilitar.

Por fim queria-te deixar um apelo, tal como o presidente John F. Kennedy deixou ao seu povo: “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, mas sim aquilo que podes fazer pelo teu país.” Ninguém te subestima, e com certeza ainda tens muito a aprender e a dar, portanto não desistas de fazer o teu caminho e defender as tuas ideias – evitando fazê-lo da maneira mais fácil ou populista, ou fazeres-te de Greta – mas procurando argumentar de maneira lógica, fundamentada e despersonalizada, pois assim não podem criticar a tua pessoa, apenas as tuas ideias mesmo que muitos não te vão ouvir ou respondam na mesma atacando o teu caráter.

E tens tanta razão em que hoje não se debatem ideias mas sim pessoas, continuando assim tudo na mesma…