O Correio da Manhã (CM) fez domingo, como seria de se esperar, manchete com a trágica morte de Pedro Lima. Ao lê-la, fiquei enojado não com o já costumeiro sensacionalismo do referido jornal, que habitualmente se aproveita de tragédias semelhantes para aumentar as vendas, mas com as nada subtis sugestões que, nunca fundamentadas, vão sendo feitas quer pela redação, quer pelo próprio Octávio Ribeiro, director do CM, no editorial que acompanha a história.

Comecemos desde logo pela capa. Nela, em nenhum momento se refere explicitamente a causa provável da morte (suicídio), não por um qualquer zelo jornalístico que impeça o jornal de avançar factos ainda não confirmados oficialmente, mas porque, como veremos mais à frente, para Octávio Ribeiro e para o CM não foi, em última análise, de um suicídio que se tratou. Ao centro, lemos as emotivas mensagens de despedida que o actor terá alegadamente enviado aos seus amigos próximos, em que lhes pedia que olhassem pelos seus cinco filhos, criando-se desde logo a imagem do bom homem que Pedro Lima terá sido, para assim se aumentar ainda mais a dimensão da tragédia e a justa comoção à sua volta. Evidentemente, não tenho qualquer motivo para duvidar da bondade de Pedro Lima, da qual estou, importa sublinhar, absolutamente convencido. Ainda que assim não fosse, ainda que Pedro Lima não fosse um pai extremoso de cinco jovens crianças ou um nadador olímpico, a tragédia não seria, pelo menos como eu a vejo, menos assinalável.

Do lado esquerdo, lemos depois: “Covid-19 cortou-lhe ordenado para metade, andava deprimido”. Ao ser veiculada assim, não se baseando em qualquer fonte fidedigna, esta manchete sugere uma correlação entre os dois factos. Que mais à frente, no corpo da notícia, se recorde que o actor sofria de uma depressão há já dois anos parece ser irrelevante, por contradizer a narrativa que tanto jeito lhes dava. Este é, aliás, o modus operandi do jornal: estabelecer correlações mais ou menos arbitrárias entre factos, sem para isso as validarem com qualquer fonte segura. Para o CM, o que poderia perfeitamente ter acontecido é mais importante do que aquilo que tudo indica poder ter acontecido.

Avancemos para a página 5, onde, ao lado de uma fotografia da família de Pedro Lima (evidentemente, o jornal não se coibiu de mostrar o rosto dos cinco filhos do actor, achando que não valia a pena poupá-los à exposição pública de uma família feliz agora destroçada), lemos a nota editorial de Octávio Ribeiro, intitulada de ‘A Onda Grande’.

Aí, Octávio Ribeiro escreve que “na última década, os espanhóis da Prisa passaram a desviar lucros da TVI para cobertura da imensa dívida em Madrid”, o que, segundo o director do CM, serviu para esmagar os interesses dos actores, “incapazes de organizar-se na defesa comum”. Despreocupadamente, Octávio Ribeiro conclui: “a paralisação ditada pela pandemia e a falta de visão e peso da ministra da cultura geraram a tempestade perfeita. Um tsunami de desesperança e dívidas ameaça muitos rostos queridos para todos os portugueses”.

Octávio Ribeiro decidiu, portanto, instrumentalizar o suicídio de Pedro Lima para servir os seus interesses de combate ao governo e à empresa que a Cofina, ainda há poucos meses, tentou comprar. Para isso, não se coibiu de se servir também do combate daqueles que se manifestam, muito justamente, por um maior e mais bem distribuído orçamento para a cultura, ainda que ache que esse orçamento era bem melhor usado para a produção de novelas e, suponho eu, musicais do La Féria. Como se não fosse pouco, Octávio Ribeiro sugere ainda que isto possa ter sido apenas o início de uma vaga suicida por parte dos “rostos queridos” de todos os portugueses.

O que o tratamento desta notícia deixa bem claro é, portanto, mais um exemplo da absoluta subserviência da verdade aos interesses dos grandes grupos económicos que financiam o CM, sendo evidente que Octávio Ribeiro e o CM estão mais do que dispostos a marionetar as notícias de forma a que estas exponham não o que realmente lhes aconteceu, mas o que lhes dava bastante jeito que tivesse acontecido, ainda que para isso tenham de imputar a Graça Fonseca e à Prisa a trágica morte de alguém que aparentemente há anos lutaria com uma depressão.

Uma última nota pessoal: durante muito tempo, achei que não ler o CM era a atitude moral que deveria ter. Ao ler isto, penso se será mesmo assim. Não sei se é melhor não patrocinar estes exercícios abjectos ou se não os devemos acompanhar de perto, uma vez que, ao não os lermos, estas brutais violações da verdade e da deontologia continuarão a passar em claro e a servir para moldar as opiniões dos muitos milhares de leitores e espectadores a quem a Cofina apresenta uma verdade à la carte.