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Justiça

O azar dos habitantes do prédio Coutinho /premium

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Todos sabem que não existe interesse público que justifique a demolição. Mas dá-se como adquirido que o Estado vai ganhar. Depois dirão: as vítimas tinham razão. É o síndroma azar dos Távoras.

Onde páram os bispos indignados? Os activistas do sofrimento? Os jornalistas ofegantes com a revolta popular? Os fóruns radiofónicos ululantes? E Marcelo, sim Marcelo, que não falha arraiais nem “futebóis” e sai para a rua mal sabe que um português espirra, desta vez não faz nem um telefonema?

Pois é, os habitantes do prédio Coutinho não geraram indignação, nem solidariedade, nem comentários nas redes sociais. Ou tendo gerado tudo isso não estão no lado certo das vítimas. Note-se que não há qualquer interesse público que justifique a demolição. Apenas uma questão de gosto. De birra pessoal.

Se os habitantes do prédio Coutinho fossem inquilinos com rendas atrasadas há vários anos, claro que Catarina Martins lá estaria aos pulinhos, gritando contra a especulação dos senhorios e exigindo até que fossem feitas obras nos andares. Não faltariam também as vozes do costume explicando a falta de uma lei de Bases da Habitação e os organizadores dos cordões humanos não teriam parança.

Se os habitantes do prédio Coutinho fossem okupas já haveria gente amarrada ao edifício e artistas vários fazendo performances. A sua vida seria designada como resistência e certamente que inspiraria vários documentários.

Se os habitantes do prédio Coutinho fossem uma matilha de cães certamente que o PAN lutaria pelo seu bem estar.

Se os habitantes do prédio Coutinho conseguissem ser conotados com uma qualquer minoria, daquelas a quem todos os dias nos dizem que temos de pedir desculpa, já lá estariam a Amnistia Internacional, enviados nas Nações Unidas e muitos mas mesmo muitos fotógrafos que obviamente fariam em Viana a fotografia do ano.

Da forma como decorre a expulsão dos proprietários do edifício Coutinho há duas lições a tirar e nenhuma delas é tranquilizadora: a primeira é que o autoritarismo que tem caracterizado o poder socialista em Viana só é possível porque a indignação, as causas e a denúncia das injustiças foram deixadas por conta da esquerda. A direita acreditou que bastava colocar contas em ordem e promover o crescimento para que se reconhecesse o seu papel e, obviamente, se lhe perdoasse o facto de não ser socialista. Agora espanta-se com a apatia da sociedade portuguesa. Mas quem ficou apático primeiro? Mais, quem senão a direita com o seu complexo de inferioridade, contribuiu decisivamente para essa anomia?

A segunda lição é também um aviso: ninguém que pense vir a ser verdadeiramente escrutinado pelos seus actos exerce o poder deste modo.

Para contrariar este estado de coisas, que é verdadeiramente o Estado de Portugal, e lutar contra o síndroma “azar dos Távoras” que se abate sobre quem enfrenta o jacobinismo venho muito pragmaticamente propor que o terreno do prédio Coutinho deixe de ser português e passe a integrar o Rio Grande, mais especificamente na zona em que este rio serve de fronteira entre o EUA e o México. A quem duvidar da razoabilidade da minha proposta recordo que esta alienação de uns metros do território português parece-me bem menos difícil de justificar que o processo que levou o estado português a demolir um mercado, vender o respectivo terreno, licenciar um prédio e agora querer demolir esse mesmo prédio para construir aí outro mercado. (A propósito quanto custou e ainda vai custar ao contribuinte português esta exibição do “quero, posso e mando”?)

A grande vantagem da passagem administrativa do terreno do edifício Coutinho do município de Viana para o território-leito do Rio Grande é que o culpado pela expropriação e pelos seus contornos injustificáveis, pelas técnicas violentas para desalojar os últimos residentes (começar a deitar paredes abaixo nos andares contíguos àqueles onde vivem os últimos habitantes do edifício Coutinho o que é senão uma enorme violência?), pela rede familiar dos diversos protagonistas, passa a ser automaticamente Trump. Assim, com o Trump à mistura, tudo se torna claro, clarinho: o que está a acontecer no edifício Coutinho é a imposição da lei do mais forte.

Obviamente que com esta deslocalização para o Rio Grande, os habitantes do prédio Coutinho deixam de ser os “habitantes do prédio Coutinho” e passam logo a ser tratados pelo nome próprio, como acontece aos protagonistas que estão do lado certo das notícias.

Dir-me-ão que os “habitantes do prédio Coutinho” ao contrário daqueles que tentam atravessar o Rio Grande para entrar nos EUA não querem ir para qualquer outro lugar, antes muito conservadoramente pretendem ficar em casa. É verdade mas esse, tenho a certeza, é um detalhe em que ninguém vai reparar. Afinal também ninguém repara na irónica contradição subjacente a termos em simultâneo (às vezes até nas mesmas notícias) críticas violentas a Trump pela forma como está a governar os EUA e críticas ainda mais violentas ao mesmo Trump por não deixar entrar nos EUA todos os milhões de sul-americanos que sonham viver nesse país, que os activistas-jornalistas na linha anterior descreveram à beira do desastre. Ou por se chamar muro de Trump a um muro que começou a ser construído há vários anos e com o aval de administrações democratas e republicanas. Ou por durante a administração Obama raramente se referir a política de deportação dos ilegais…

Esta minha proposta tem ainda a extraordinária mais-valia de poupar as viagens ao “Miguel” e aos outros “miguéis” que por aí pululam: os migrantes, imigrantes, refugiados… em vez de tentarem atravessar o Rio Grande apanhavam simplesmente o avião para Portugal, uma vez aqui chegados dirigiam-se para Viana e aí instalavam-se no edifício Coutinho. Depois era só convencerem o Trump que estavam no lado americano do Edifício Coutinho-Rio Grande. Ou os mexicanos doutra coisa qualquer.

Tenho a certeza que em menos de um mês todos nós perceberíamos que aqueles desgraçados que aparecem nas imagens que nos estão a chegar do Rio Grande, estão a ser atraídos a uma armadilha. E não, não é pelo Trump.

PS. Sobre o bloqueio da ponte em 1994 que o PS entendeu celebrar votando favoravelmente uma proposta do PCP, estranho que não se tenham convidado a estar presentes na AR, neste momento histórico da pouca vergonha, os irmãos Pinto que em 1994 lideraram a revolta. Certamente que os irmãos Pinto guardam desses dias um acervo de histórias interessantes que infelizmente nunca tiveram oportunidade de passar a escrito (apesar de notícias como esta — “Irmãos Pinto condenados por tráfico agravado” — nos levarem a pensar que tempo livre não lhes faltou) mas que poderiam relatar de viva voz aos senhores deputados. Já agora quando os motoristas de matérias perigosas voltarem a parar o país não se esqueçam desta votação.

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