Praia

O inferno é ter de ir à praia

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Se eu pudesse ser tele-transportada para a praia e de volta para casa ao fim do dia, iria à praia de boa vontade. Porque o problema não é estar na praia, é ter de ir e vir da praia …

No verão, uma das vantagens de viver em Lisboa é não ter de ir à praia. Quando vivia fora de Lisboa, perto do mar, era quase obrigatório ir à praia, porque estava próxima.

Estar na praia, às vezes, até sabe bem: olhar para o mar ou ler um livro, mergulhar e nadar um bocado. As crianças, quando são pequenas, entretinham-se com areia, água e um balde; hoje, já crescidas, entretêm-se com os telemóveis. Podemos adormecer a ouvir o zumbido de outra gente e das ondas a bater na areia, embora uma boa sesta possa custar uma queimadura catastrófica. Se eu pudesse ser tele-transportada para a praia e de volta para casa ao fim do dia, iria à praia de boa vontade. Porque o problema não é estar na praia, é ter de ir e vir da praia …

Primeiro, temos de nos lembrar de tudo o que é preciso levar, incluindo os filhos. Temos de levar o mínimo possível, mas não podemos deixar nada para trás: os documentos do carro, o BI, toalhas, loção para o sol, água, telemóvel, máquina fotográfica, uns iogurtes obrigatórios para as crianças, um chapéu de sol daqueles que podem matar gente (já lá chegaremos), bonés, casaquinhos para um eventual vento frio, etc., etc., etc.

É preciso ir de carro, a não ser que moremos nuns dos poucos sítios onde há rotas de autocarros ou comboios (Costa da Caparica, Linha de Cascais, e mais umas poucas cidades no Algarve e ao longo da costa do norte). É bom que a maior parte das praias não estejam estragadas por filas de hotéis em cima delas, mas por outro lado, isto significa que, mesmo em férias, é preciso usar o automóvel, encontrar um lugar para estacionar, andar um quilómetro para chegar à praia, numa estrada íngreme, e depois andar mais meio-quilómetro no areal para chegar à parte da praia menos coberta de gente e das suas tralhas, e tendo sempre na mente que vai ser preciso repetir toda esta viagem ao fim do dia, no sentido inverso. Está assim estragado qualquer bem-estar que a praia possa inspirar.

E não é seguro que a praia vá proporcionar esse bem-estar. Por vezes, a praia está demasiado povoada para que encontremos um lugar a 5 metros de distância da virilha suada de uma outra pessoa, ou das suas discussões familiares, ou de ambas as coisas. Por vezes, temos de ficar ao lado de quem passa o dia ao telemóvel, por causa de negócios ou de bisbilhotices, a ouvirmos só um dos lados da conversa. Outras vezes, é uma pessoa com uma voz fantasticamente chata que é uma mãe galinha das piores e nunca desiste de chatear o miúdo, em voz alta, porque o miúdo não quer comer, ou porque o miúdo, depois de comer, quer ir já para a água.

Por vezes, há vento suficiente para levantar os chapéus de sol e fazê-los voar ao longo da praia. É preciso então estar atento aos chapéus de sol voadores, para não acabarmos com um deles espetado num olho, e também estar atento ao nosso próprio chapéu de sol, para termos de o ir desenterrar do olho de outra pessoa. Ao fim do dia, se sobrevivemos à praia com todos os olhos intactos, podemos finalmente ir embora, palmilhar o quilómetro e meio até ao carro, passar meia hora a tirar a areia de todas as partes do corpo, e depois conduzir para casa em longas filas de trânsito, atrás de gente quase a dormir e seguidos por outros que querem ultrapassar-nos nas curvas por cima das falésias.

Chegamos a casa, exaustos.

Mas já desisti de dizer às pessoas que a praia não me interessa, embora por vezes tenha de o lembrar às amigas que gozam com as minhas pernas brancas no fim do Verão. Elas ficam sempre chocadas, como se não gostar de ir à praia fosse uma coisa inimaginável, como se eu estivesse a confessar que não gostava de doces conventuais ou de fado. É que sempre que alguém admite não gostar de uma coisa de que os portugueses julgam absolutamente normal que se goste, como o fado, os doces conventuais ou um Verão passado na praia, todos eles ficam estupefactos e até ofendidos. A praia e o doce de ovos parecem ser a base do patriotismo. Enfim, nunca conseguirei pertencer à tribo.

(traduzido do original inglês pela autora)

Hell is having to go to the beach

In the summer, one of the great things for me about living in Lisbon is not HAVING to go to the beach. It used to be, when we lived in the village, that, since the beach was so close, we felt we really ought to go.

Being on the beach is ok, I suppose. Staring out to sea or reading a book, swimming a bit. The kids, when they were small, entertained with just sand and water and a bucket (now they are big, their phones, instead of a bucket). You can doze off with a distant burr of the sea and the burble of other people, risking catastrophic sunburn but at least you have good nap, and if you could teleport me to the beach and home again at the end of the day, then I’d more gladly go, because getting there…

First, you have to remember everything, including the children, taking as little as possible, but not leaving behind any of the things you aren’t allowed to go out without: car documents, ID, towels, sunblock, water, phone, camera, some statutory yoghurt for small children, a sunshade of death (I’ll get to that), hats, cardies in case of freezing wind… etc., etc., etc.

You have to take the car, unless you live anywhere within walking distance, or with a bus or train route, i.e. almost everywhere apart from Costa da Caparica, Linha de Cascais, and a handful towns and cities dotted around in the Algarve and along the coast around Porto. It’s a great thing that most beaches haven’t been destroyed by rows of hotels to spill out onto them, but on the other hand, this means finding a parking space, then still having to walk another kilometre to the beach, often down a steep hill, then walking a further half kilometre along the beach until everyone’s desire to be away from the crowd has been satisfied, while carrying all the stuff and remembering that you didn’t leave the children in the car, and knowing that I am going to have to do this same walk back to the car later, often back up that same steep hill, thereby destroying most of the restfulness that being on the beach may have inspired.

And it’s not assured that the beach will bring any restfulness, anyway. Sometimes the beach is just too full to find a space with a 5 metre radius from someone else’s sweaty crotch or familial arguments, or both. Sometimes, you find yourself too close to someone who spends the whole day conducting their business or gossip on the phone, which is annoying, because you can’t hear both sides of the conversation. Or you might be next to that person with a wildly irritating whiny voice that is a terrible mãe galinha and spends the entire day fussing volubly over her child, making sure it eats its never goes hungry or unattended for one minute, and then berating it for wanting to go to the water after it has eaten something.

Sometimes, there is just enough wind to pick up various sunshades and propel them down the beach. First, you have to be alert to incoming flying sunshades that might take your eye out. Then you have to be attentive to your own sunshade in case it is taken by the wind, and takes someone else’s eye out. If you survive with both eyes intact, you can finally leave the beach, trudge the kilometre and a half back to the car, spend half an hour de-sanding yourselves, then drive home along a mountain road, pursuing people who have to drive slowly because they are half asleep from the beach, and being pursued by people who want to overtake you on a bend in the mountain.

You get home, shattered.

I’ve more or less given up telling people that I don’t care about going to the beach, but sometimes, it’s necessary to explain it to them while they ridicule my white legs at the end of the summer. Often, they are really surprised, find it such a strange thing to admit to, it’s as if it were unthinkable, as if I were admitting to something genuinely shocking like not liking oxygen, or worse, not liking doces conventuais or fado. Oh, wait. That’s ridiculous, too. When anyone admits to not liking something deemed as particularly Portuguese, such as doces conventuais, fado, or hanging out all summer at the beach, it doesn’t matter what nationality they are for other people to be offended on behalf of the motherland because what… not liking sand getting stuck in all your crevices is unpatriotic, un-Portuguese?

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