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Por regra, após uns breves instantes de conversa sobre o tema a pergunta já chega na negativa: “Mas tu não gostas de futebol?” Costumo responder que sim, gosto de futebol, mas que o mundo do futebol me causa repulsa quase sempre e me enoja muitas vezes. E esse “mundo do futebol” é a generalidade de tudo o que se passa fora do campo mas, sobretudo, a forma como tudo se passa fora do campo.

O futebol, enquanto espectáculo, pode ser fantástico. Tem protagonistas de um valor único, exemplos de trabalho, superação, dedicação, humanismo e talento. É uma ciência de estratégia, tática, liderança e gestão de pessoas. É um negócio tremendo, com marcas das mais poderosas em todo o mundo, sejam elas de clubes ou de “personas”, como Ronaldo ou Mourinho. Mas também é um dos sectores mais difíceis, porque vive essencialmente da paixão clubística e da emoção dos adeptos e da irracionalidade que estas inevitavelmente carregam.

O problema é que a irracionalidade de muitos adeptos, se entendível até certo ponto, é ultrapassada regularmente pelo resto do ecossistema, onde se esperaria bom senso, ponderação e um sentido de responsabilidade compatível com a missão de cada um. E aqui falo dos dirigentes de clubes e de organizações de futebol, treinadores, classe política e instituições e, claro, dos media.

O papel dos media é particularmente relevante pela capacidade que têm para ampliar comportamentos e atitudes, pelo poder de construir ou destruir protagonistas e “figuras públicas” e porque é através deles que, bem ou mal, se transmitem valores colectivos a uma sociedade.

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Quem “aterrar” por estes dias em Portugal vai assistir a um dos espectáculos mediáticos mais deprimentes de sempre, à volta do acompanhamento da selecção de futebol do país no Europeu de França.

Não está em causa, naturalmente, a importância do evento e o lugar de destaque que deve ter em qualquer alinhamento noticioso. Não chego ao ponto de defender que o enésimo naufrágio de um barco de migrantes no Mediterrâneo deva merecer mais destaque nos jornais, rádios ou televisões do que a preparação da equipa num dia de jogo. Para muitos isso seria uma excentricidade a requerer a consulta urgente de um médico, o que só de si já diz muito do estado em que estamos nesta matéria.

Mas entre um acompanhamento com destaque até exagerado e a loucura que já se instalou com o pré-França e a partida e chegada da selecção ao Europeu vai um mundo de diferença. Nós, jornalistas, estamos verdadeiramente a ensandecer em relação a alguns assuntos e o futebol é, talvez, o mais flagrante. A corrupção das linhas editoriais é uma evidência e isso quer dizer que não estamos a fazer bem o nosso trabalho.

Há 12 anos, quando o Euro foi organizado por Portugal – o das bandeirinhas nas janelas -, podíamos pensar que era por isso mesmo. A festa era em casa e a proximidade é um critério jornalístico importante. Fazer directos de horas a acompanhar o autocarro da selecção levou-nos a encolher os ombros. Teríamos “batido no fundo” mas de lá regressaríamos rapidamente. Afinal não, tal como não “batemos no fundo” do entretenimento quando, há uma década e meia, o “Big Brother” arrancou no meio de grande polémica. Hoje, o “Big Brother” parece um clássico sensato, quando o comparamos com outros formatos do género que entretanto apareceram.

Com o futebol o fenómeno é idêntico, com uma grande diferença: estamos a falar de informação e não de entretenimento.

As horas intermináveis que quase todos os dias as televisões dedicam a discussões sobre futebol, muitas vezes sem mostrarem um segundo que seja imagens do jogo, fala bem desse fenómeno. Discussões muitas vezes de baixo nível, de uma violência verbal, moral e ocasionalmente física que emprestam mau nome ao futebol-espectáculo mas dizem muito do tal mundo do futebol. Diz-se que é isso que as pessoas querem ver. Calma. Hoje, o que as pessoas querem mesmo ver está cada vez menos nas audiências televisivas e cada vez mais nos rankings das plataformas electrónicas, onde podem escolher elas mesmas de uma imensidão de assuntos, que vão dos gatinhos engraçados a videoclips. As estatísticas do Youtube dizem que os mais vistos em Portugal até ao ano passado foram estes: “Pintinho Amarelinho – DVD Galinha Pintadinha” e “Ruca e os amigos”. E que tal se ocupássemos os serões televisivos a discutir o Ruca e o Pintinho Amarelinho? Se a lógica é “o que as pessoas querem ver”…

Este mundo do futebol é aquele onde, demasiadas vezes, dirigentes reverencialmente eleitos à condição de “Sr. Presidente” pelos media estão envolvidos em casos de justiça – a banca, nos últimos anos, tem conseguido idêntica proeza, mas os banqueiros indiciados não têm essa boa imprensa, e ainda bem.

Este é um mundo que, não raras vezes, transmite valores errados à sociedade. Não é normal que jogadores violentos para lá dos graus de tolerância do jogo sejam imediatamente desculpabilizados, justificados e continuem alegremente a representar uma selecção e com a bandeira do país ao peito, quando deviam ser pura e simplesmente afastados por manifesta mal formação e impreparação para nos representarem.

Este é um mundo que faz do seu ascendente mediático a sua grande força. E essa força tanto pode servir para manipular massas associativas como para se sentar à mesa onde se distribui o dinheiro dos contribuintes. Quanto mais poder mediático exacerbado e injustificado tem o mundo do futebol, mais estádios vão ser pagos pelos contribuintes para depois ficaram ao abandono, mais facilidades fiscais e imobiliárias são dadas, mais promiscuidade se alimenta com os decisores políticos – governos e câmaras municipais -, que tantas vezes se vergam perante tal poder mediático e popular. A propósito: como foi paga a Cidade do Futebol, recentemente inaugurada perto do Estádio Nacional? E quais são as verdadeiras relações financeiras da Federação Portuguesa de Futebol com o Estado? E porque é que os ordenados dos selecionadores e prémios da selecção não são públicos?

Este é um mundo onde se baixam totalmente os níveis de exigência, transparência e decência que fixamos, e bem, em relação a outros sectores. Vejo tanta gente decente e bons pais de família serem tão duros perante políticos, empresários ou sindicalistas e depois complacentes perante o duvidoso presidente do seu clube de coração. “Mas ele está a fazer um grande trabalho” é a resposta. É o triunfo do “roubo, mas faço” em versão clubística. Ouço tantas histórias de bastidores que nunca são investigadas mas que o seriam se fossem da área da política ou dos negócios, como deve ser.

Este é um mundo que presta um mau serviço ao futebol, servindo-se dele, do espectáculo feito por humanos muitas vezes fora de série, para outros fins que já não são desportivos há muito tempo, têm muito de negócio mas sobretudo de interesses particulares.

Este é um mundo em que consideramos normal que claques oficiais se constituam como grupos de crime organizado, que saqueiam estações de serviço por onde passam ou se transformem em milícias privadas de defesa e segurança. Quase tudo com o apoio ou, pelo menos, a complacência, dos respectivos clubes. E das autoridades.

É este mundo que é alimentado e muitas vezes construído pela abordagem editorial sem regra, onde se confunde informação com um entretenimento bacoco, onde se inventam alegria e festa postiças, onde se criam falsas ondas patrióticas que morrem na primeira bola ao poste que, a ser golo, safaria a coisa.

A lista podia continuar, mas o artigo já vai longo e, como dizia o outro, “vocês sabem de que é que eu estou a falar”.

As próximas semanas, tudo o indica, serão tristemente exemplares desta azafama acéfala. Se fosse com a política, uma abordagem mediática deste género não ficaria nada a dever à propaganda do regime norte-coreano. Mas como é com futebol, com o seu negócio e os seus senhores, é de festa que estamos a falar.

À parte disso, que se façam bons jogos dentro do campo. Disputados, leais, esforçados, mágicos. Depois, que ganhem os melhores. Por fim, que nada disto justifique um acréscimo de influência perversa que é já muito exagerado por parte desse mundo do futebol.

pauloferreira1967@gmail.com