Sábado, 4 de Outubro “Dezenas de manifestantes pró-Palestina ocuparam estação do Rossio. Protesto estava no fim do percurso quando parte do grupo entrou na estação de comboios do Rossio, em Lisboa, e se sentou no chão. Um manifestante subiu a uma carruagem e foi eletrocutado.”
Quinta-feira, 2 de Outubro “Alexandra Leitão foi travada, quando tentava sair de carro do Museu do Design (MUDE), após o debate de quinta-feira, por dezenas de manifestantes que protestavam contra Israel após a detenção dos membros da flotilha humanitária que seguia em direção a Gaza. “Não é assim que se resolve”, disse a candidata à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, depois de se tentar dirigir aos manifestantes, que eram algumas dezenas. Entretanto, chegaram vários elementos da PSP que encaminharam a socialista de volta ao interior do edifício.”
Há um fio condutor a estas notícias para lá do comum pano de fundo dos protestos ditos a favor da Palestina. O que une estas duas notícias é uma velha máxima da política: a tolerância para com os excessos e a violência dos movimentos radicais acaba a virar-se contra os seus activistas e obviamente também contra aqueles que acreditam que por partilharem com eles pontos de vista serão poupados aos seus desmandos. Alexandra Leitão a voltar, constrangida e ladeada de polícias, ao edifício que deixara convicta que conseguiria falar com os manifestantes que o cercavam, só porque está coligada com o Livre e o BE e anda há meses a dizer que está a ter lugar um genocídio na Palestina, é um momento icónico como agora soe dizer-se, dessa presunção que se instalou entre muitos socialistas de que a extrema-esquerda os poupará à sua violência e desgaste. (Mais a mais agora que um PS enfraquecido é o terreno eleitoral de que se podem alimentar!)
Mas se Alexandra Leitão parecia repetir a cada franzir de sobrancelhas um “Eu não vos mereço isto!” Carlos Moedas era o vivo retrato duma direita que sobrevive a dizer coisas de esquerda. Confrontado com o facto de não poder abandonar o museu onde tivera lugar o debate entre todos os candidatos à presidência da CML, Carlos Moedas começa por dizer “Tenho um grande respeito pelo direito à manifestação de todos mesmo quando muitas vezes não concordo mas aqui há realmente um problema enorme” Ora quando se esperava que este homem que além de candidato é ainda presidente da CML dissesse que não é aceitável que se perturbe um debate entre candidatos, que esclarecesse os contornos legais da manifestação que naquele preciso momento impedia a saída dele e dos outros candidatos e que explicasse a questão dos cortes de trânsito na cidade por esses mesmos manifestantes, eis que Moedas completa o sentido da frase “mas aqui há realmente um problema enorme” e explica como se fosse polícia sinaleiro em Gaza: “mas aqui há realmente um problema enorme no Médio Oriente . Nós queremos a paz. Queremos uma solução de dois estados e isso é importante” É caso para dizer: Ayuso vieste a Lisboa para nada!!!
Mas as consequências da cumplicidade da esquerda e a lassidão temerosa da direita ou da não esquerda perante as tácticas da extrema-esquerda não se esgotam nesta espécie de erosão quotidiana dos limites da convivência. Invariavelmente chega o dia em que esses limites são ultrapassados. E foi isso que aconteceu este sábado. Já no final da tarde, imbuídos do espírito de que tudo lhes é permitido, “um grupo de dezenas de participantes entrou na estação do Rossio e sentou-se no cais, tentando impedir a partida dos comboios.” O resto vai-se sabendo: um dos manifestantes (há quem fale em dois) para tornar mais efectiva a impossibilidade de partida dos comboios ou por outra razão desconhecida sobe ao topo da carruagem, toca na catenária e é electrocutado.
E aí entramos no outro grupo que acaba a sofrer as consequências da tolerância para com os excessos e a violência dos movimentos radicais de esquerda. São eles obviamente os jornalistas e o jornalismo. A partir do momento em que se percebe que o manifestante foi electrocutado porque subiu a uma carruagem e que a polícia nada tivera a ver com o caso, o ferido, apesar da gravidade do seu estado, perdeu importância noticiosa. Quem é ele? Foi ajudado? Incentivado a fazer o que fez? Quem são os responsáveis pelo grupo de dezenas de pessoas que tentou impedir a circulação dos comboios? Os manifestantes vão agora ao Hospital de São José procurar saber do seu estado?…Não sabemos nem sei se saberemos. Mas tenho a certeza que se houvesse um polícia a responsabilizar teríamos muitas mais perguntas. O jornalismo às vezes ele mesmo activista, outras vezes, demasiadas, que se deixa capturar pela estridência dos activismos enquanto ignora o que diz boa parte da sociedade sobre o que acontece na sua rua: quantas vezes mais teremos de assistir a casos como o do ataque a um casal em Valongo por um grupo de treze pessoas para que se dê destaque noticioso às consequências do sentimento de impunidade que se instalou na sociedade perante casos como este?
Os mesmos activistas que há algum tempo destruíam quadros e atiravam tinta para cima dos políticos por causa da emergência climática, agora andam de lenço palestiniano ao pescoço, deitam centenas de telemóveis ao Mediterrâneo sem pensar na contaminação das águas e, com variantes consoante os países, vão da violência verbal à física contra os judeus e Israel. Tal como em Gaza não há genocídio algum também o planeta não está à beira do fim.
Amanhã outra causa virá. Igualmente urgente e inadiável pois é esse factor urgência que os activistas usam para justificar o atropelo das regras e a violência a que recorrem. Nada disto surpreende ou espanta. O que não se pode continuar a tolerar é que os líderes do centro continuem a reconhecer-lhes uma qualquer superioridade moral e a tomar medidas a reboque dos seus slogans.