A capacidade dos partidos de centro esquerda na Europa para cometerem actos de puro suicídio aparentemente é ilimitada. Na Grécia, o PASOK desapareceu e no Reino Unido o Partido Trabalhista está a cometer um suicídio em público. E mesmo nos países onde a sobrevivência não está em jogo, os partidos do centro-esquerda enfrentam dificuldades. Na Alemanha, o SPD é incapaz de derrotar Merkel. Em França, os socialistas oscilam entre a fraqueza e a divisão. E em Espanha e Portugal, depois de anos de austeridade, os partidos socialistas deveriam estar a lutar por maiorias absolutas, mas em vez disso estão a tentar evitar derrotas eleitorais.

O declínio da social-democracia e do socialismo europeus acorre depois da maior crise no sistema capitalista global desde 1945. As lideranças dos partidos de centro esquerda deveriam levantar a seguinte questão: por que razão os nossos partidos não alcançam maiorias absolutas num contexto de crise financeira e económica? Entre outras, destacaria duas razões, uma externa e outra interna. A externa resulta de uma mudança na percepção de muitos eleitores sobre a natureza da crise. O que começou por ser apresentado como uma crise provocada pelos excessos do sistema financeiro global (o que seguramente contribuiu para a crise), tornou-se numa crise que resultou do descontrolo das despesas públicas. Sobretudo na Europa – e especialmente na zona Euro – o argumento da despesa pública triunfou sobre o argumento dos excessos financeiros. E aqui a direita derrotou a esquerda no debate público. Os resultados eleitorais sugerem que a maioria das populações europeias olha para a crise como resultado do descontrolo da despesa pública – o que penaliza os partidos de esquerda. Mais importante, a maioria dos europeus confia mais nos partidos de direita do que nos partidos de esquerda para resolver a crise. Pelo menos os resultados das eleições e os estudos de opinião assim o indicam.

Mas há igualmente uma razão interna. A crise expôs a vulnerabilidade dos partidos de centro-esquerda às piores ideias das esquerdas radicais. Como se dentro de cada socialista houvesse um trotskista, um maoísta ou mesmo um estalinista, o qual regressa quando o dinheiro começa a faltar. Para quem não é nem nunca foi socialista, a explicação para esta vulnerabilidade socialista ao vírus do radicalismo não é evidente nem fácil. Estará certamente relacionada com percursos ideológicos, com educações políticas, com aspectos de identidades individuais e com uma enorme incompreensão sobre o mundo do século XXI e a natureza dos mercados globais. Na Europa, o vírus do radicalismo está a matar a “terceira via” social-democrata, assente num equilíbrio entre a economia de mercado e o progresso social. E esta morte condenará o centro-esquerda a uma longa crise.

Neste contexto, o suicídio do Partido Trabalhista é interessante. Foi aí que surgiu a “terceira via” de Blair, foi onde ela conheceu o maior sucesso político, e é onde ela está a ser morta de um modo implacável. O ódio dos trabalhistas a Blair tem tanto de impressionante como de inexplicável. Blair foi o líder trabalhista com maior sucesso na história do partido, tendo alcançado três maiorias absolutas seguidas. Desde que Blair abandonou o nº 10 de Downing Street, o partido nunca mais parou de se afastar do seu antigo líder. Começou com a eleição, há cinco anos, de Ed Miliband para líder e aparentemente irá culminar com eleição de Bernard Corbyn no próximo mês. A escolha de Corbyn para liderar os trabalhistas constituirá um terramoto para o partido e para a própria política britânica.

Cegos pelo vírus do radicalismo, a maioria dos trabalhistas não entende um ponto óbvio. Ao renunciarem a uma fórmula política de sucesso não estão simplesmente a rejeitar a herança de Blair. Estão a atacar a maioria do povo britânico. Nas últimas eleições, os trabalhistas passaram a seguinte mensagem aos britânicos: nós não queremos as políticas em que vocês votaram no passado. Os eleitores responderam com uma maioria absoluta dos conservadores. Em resposta à derrota eleitoral, os trabalhistas, em vez de moderarem o seu programa, parecem empenhados em radicalizá-lo. Com esta escolha, abrem-se alguns cenários. Os trabalhistas chegam rapidamente à conclusão de que cometeram um enorme erro e Corbyn não resiste na liderança do partido até às próximas eleições. Mas a eleição de um novo líder moderado provavelmente não será suficiente para vencer as eleições de 2020. Ou seja, a eleição de Corbyn poderá condenar o partido à oposição até 2025.

Num cenário ainda pior para os Trabalhistas, Corbyn consolida a sua liderança, radicaliza o partido e resiste até às próximas eleições. Neste caso, poderá acontecer uma cisão no Partido Trabalhista, com os sectores mais moderados e herdeiros da “terceira via” a saírem e, possivelmente em coligação com os liberais, formarem um novo partido social-democrata. Se o novo partido ou mesmo os liberais (os quais terão uma grande oportunidade com a eleição de Corbyn) ficarem em segundo lugar em 2020, poderemos assistir ao fim do Partido Trabalhista como partido de poder. Claro que tudo isto é prematuro, mas são os cenários que se discutem no interior do partido, especialmente pelos sectores “blairistas”.

A eleição de Corbyn terá igualmente um impacto no referendo europeu, a realizar muito provavelmente em 2016. Corbyn pertence ao velho Partido Trabalhista anti-europeu. Se o governo conservador negociar um “opt-out” das políticas sociais, os trabalhistas liderados por Corbyn farão campanha pelo Não (o que causará uma divisão no partido). Além disso, a maioria do partido, após o referendo na Escócia, concluiu que uma campanha ao lado do governo conservador tem consequências eleitorais desastrosas. Em 2016, o Reino Unido poderá assistir a uma repetição do referendo de 1975. Os conservadores a fazerem campanha pela Europa e os Trabalhistas contra. Quem diria há apenas uns meses?