O vice-presidente do Conselho Superior do maior clube local da bola, na sua qualidade de Presidente da Câmara do Porto, manifestou publicamente o seu orgulho por mandar fechar a cidade, proibindo na prática os festejos de São João.

Advertiu os jovens para o cumprimento da regra “xixi-cama”, interditou a abertura de bares e cafés a partir de determinada hora, interrompeu a circulação de transportes públicos, impediu arraiais, rusgas e ajuntamentos populares nas ruas.

Depois de citar Jorge de Sena num post no Facebook, confessou-se alegremente “arrepiado” com o que apelidou ser o “civismo” dos portuenses em deixar a urbe deserta de gente e triste com ausência de vida. Conclui a mensagem com um “Somos assim. Ponto”.

Não. Nem é ponto, nem a alma do Porto é o que julga o político poder determinar que é.

Nada me move pessoalmente contra Rui Moreira e nem me repugna reconhecer que a sua administração autárquica é melhor que a de outros no passado e provavelmente seria (ou será) superior à dos potenciais candidatos de que se falam poder entrar na corrida para o cargo. Todavia, havendo humildade democrática não creio que se possa furtar ao escrutínio e crítica das suas decisões públicas.

O medo irracional não é civismo nem preocupação pelos outros. Pelos inúmeros “likes” que o presidente da edilidade granjeou nas redes sociais, revela-se um comportamento de rebanho, ansioso e voluntariamente aderente a um suspender das mais básicas liberdades individuais. Se este vírus endémico proto-fascista e menorizador da consciência adulta das pessoas e da autonomia das suas decisões nos parecia próprio de uma cidade capital do Reino, evidencia-se como um foco com cadeia de transmissão bem delineada entre alguns que querem transformar o Porto numa cidade menos amiga da Liberdade e mais protectora dos interesses e castas.

Há um desejo indómito de abrir espaço a uma corte própria e orgulho na parolice da oligarquia regional.

As festas denominadas em honra de quem baptizou Jesus nas águas do Jordão têm, no entanto, e sobretudo, uma raiz popular, pagã. E não fossem acertos modernos de calendário, continuariam, como de início, a coincidir com a data do solstício de Verão. Aliás, na sessão camarária de 1911, em que se determinou primeiramente o feriado, deixou-se claro, em acta, que o 24 de Junho não seria comemorado com carácter religioso como dia de São João, mas como uma festa da natureza, celebratória das boas colheitas e da abundância proporcionada pelo trabalho humano na sua conjugação com os Elementos.

Se por qualquer razão – inclusivamente sanitária, ainda que o vírus não desapareça da comunidade por decreto – alguém queira fechar-se em casa em vez de sair à rua, tem e deve ter todo o direito a assim proceder. Não creio é que deva ser reconhecida autoridade moral às administrações públicas para suspenderem os direitos de ajuntamento, circulação nem, muito menos, à expressão espontânea de alegria e felicidade das populações.

Uma cidade intrínseca e historicamente desconfiada do poder estatal e das prepotências centralizadoras e em que gente de todas as classes sociais convive e desfruta do espaço público, não deve ser descaracterizada por festas hoje confinadas aos jardins das moradias da burguesia e aos condomínios fechados dos “afluentes”.

Quem, como eu, percorreu as ruas do Porto na noite de São João viu quase nenhuma gente na Baixa e centro histórico, mas não deixou de reparar nos carros e carrinhas da polícia e nos grupos de agentes espalhados um pouco por todo o lado. Por isso esta preocupação de monitorização dos cidadãos é ainda mais estranha quando ainda há dias ninguém ficou com memória de ter visto aparato de segurança relevante em manifestação bastante participada onde se empunhavam, em vez de alhos-porros, cartazes de incentivo à morte de polícias.

Será este episódio um segundo acto daquilo que critiquei no ano passado como um apascentar das ovelhas e talvez uma tentativa de generalização de reverência à corte local através da quebra de tradições e da alteração da dinâmica habitual dos festejos de rua por um ámen em frente a palanques de autarcas?

E, já agora, se não há direito à festa, por que razão não determinou a Câmara que o dia 24 deixasse, ainda que temporariamente, de ser feriado municipal e afirmasse desse modo a virtude do trabalho?

É que nem a fobia histérica nem a bazófia das seitas urbanas pseudo-sofisticadas tolhem a Invicta!