Uma família em isolamento, dia 14

Arroz, açúcar, ovos, azeite, manteiga, “aqueles iogurtes de que o pai gosta”, leite. A caminho do supermercado, vou falando com a minha mãe e tomando nota das coisas de que precisam, para juntar à lista de compras que ia fazer. Evitam-se várias viagens fora de casa e, sobretudo, garantimos que os meus pais se mantêm seguros e não se expõem.

Ora vais tu, ora vou eu, quando fores liga-me, para ver se me lembro de alguma coisa que tinha ficado por comprar. Vou falando com a minha irmã para nos revezarmos nesta nova rotina das últimas duas semanas, nós tratamos do supermercado, a minha sobrinha trata da fruta e legumes para os avós. Entre todos lá vamos tentando garantir que o Zé e a Maria Dias não têm razões para sair de casa. A idade de ambos e alguns problemas de saúde que os acompanham há anos colocam-nos num grupo de risco muito sensível à Covid-19 e todos os dias, pela hora de almoço, quando saem os novos boletins da DGS, o aumento do número de pessoas infetadas que cresce na faixa etária dos meus pais faz-nos engolir em seco. Não falamos muito sobre isso, não corremos para o telefone para lhes dizer “Vês o que te digo?!”, mas também sabemos que não é preciso. O meu pai é o maior consumidor de informação que conheço e não há dia que passe em que não estejam a par da evolução do coronavírus em Portugal.

Ainda assim, quase todos os dias, há alguma coisa que os faz ter vontade de sair de casa, há alguma coisa de que precisam, alguma coisa que só eles é que podem fazer, só eles é que podem tratar, só eles é que sabem como é. Se não é a farmácia é o multibanco, se não é o talho é outra coisa qualquer. Nós zangamo-nos, barafustamos, reclamamos, dizemos que não pode ser – a minha mulher há dias disse-me que fui um bruto com o meu pai ao telefone –, ligamos uns aos outros a fazer queixa, vê lá tu o que pai fez, não vais acreditar onde é que a mãe foi. E a nossa irmã no Porto, que fica triste por não estar perto para ajudar também, junta-se ao coro de lamentos por estas coisas que não percebemos.

E depois, quando passa, quando acalmamos, quando voltamos a conversar uns com os outros para ter a certeza que temos a derradeira lista de compras e que não nos esquecemos de nada que motive mais uma saída, mais uma ida ao supermercado, quando pensamos como é que nós vamos ser quando formos nós a precisar de ajuda, quando nos lembramos de tudo o que eles ainda fazem por nós, nessas alturas cai-nos a ficha e percebemos a bênção que é ter duas pessoas autónomas, lúcidas, com energia e capacidade de enfrentar problemas. Ainda os temos, ainda os queremos ter por muitos anos, ficamos transidos de medo de os perder, e se tivermos de ir comprar um quilo de açúcar de cada vez porque se esqueceram de juntar à lista anterior, nós reclamamos mas vamos. Porque é uma bênção termos o Zé com 89 anos, que todos os dias precisa de sair de casa para ir passear a cadela e garante que não fala com ninguém no caminho e se falar é à distância. Porque é uma bênção termos a Maria Dias com 88, que agora aprendeu a atender chamadas de vídeo pelo Messenger e assim pode ver a família todos os dias.

Ontem foi domingo, fiz compras para casa e juntei “aqueles iogurtes de que o pai gosta” e as outras coisas todas. Foi a minha vez de lá ir, de colocar os sacos na escada e ali ficar, poucos minutos, muitos metros de distância, de perguntar se estão bem, se precisam de mais alguma coisa, como é que estão a viver estes dias, como é que estão as cabeças a lidar com o isolamento. Desci as escadas, fiz adeus em direção à janela para onde vão sempre e fui embora com o coração nas mãos, preocupado por eles, com vontade dos abraços e dos beijos que vão sendo adiados, a pensar quando será a próxima vez que nos sentamos todos à mesa, sem nos preocuparmos se estamos muito perto uns dos outros. Há dias saí de carro com as minhas filhas para esticarem as pernas e apanharem ar e acabámos em frente ao prédio onde vivem os avós, a acenar uns aos outros. Quando íamos para casa, uma delas atirou: “Gosto mais de ver os avós aqui e falar com eles aos gritos do que de falar para o telemóvel, mesmo que os possa ver”.

De vez em quando falo com amigos sobre isto. E estão na mesma. Os pais deles fazem exatamente a mesma coisa e eles também barafustam e também desabafam com os irmãos e também abanam a cabeça a dizer “raio dos velhotes, que não há maneira de os manter em casa”. E também sentem que é uma bênção ainda terem preocupações destas.

Veja também (Diário de Uma Família em Isolamento):

Dia 1. Sabe o nome do seu vizinho?

Dia 2. Teletrabalho? Vocês não têm filhos pequenos, pois não?

Dia 3. Vai para dentro, olha que te constipas, pai

Dia 4. Jantar de grupo, hoje. Por vídeo? Cada um na sua casa.

Dia 5. #vaificartudobem, mas antes disso estamos a ficar mal

Dia 6. Domingos que parecem outro dia qualquer, sempre iguais

Dia 7. Uma quarentena para ler as mensagens todas no WhatsApp

Dia 8. “Quando é que isto acaba?” Não sei, filha

Dia 9. E os professores dos nossos filhos, como estão a lidar com isto?

Dia 10. Já chegou. Um dos nossos está infetado

Dia 11. Rotinas 0 – 1 Sanidade mental. Que se lixem as rotinas

Dia 12. Agenda da quarentena: às nove no Instagram ou às dez no Skype?

Dia 13. Como explicar a uma criança o que aconteceu ontem na Ponte 25 de Abril?