Relações

Pessoas ON e OFF

Autor
  • Marta L. Almeida
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A vida real pulsa fora das telas. Seria tão mais simplório se hoje, por não querer gostar mais de ti, pressionasse o botão, e tu desaparecias, que isso determinasse o que eu sinto ou deixo de sentir.

Todos nós, enquanto seres humanos que somos, tornamo-nos bastante completos, donos da razão e de um potencialíssimo imaginário, em diferenciadas proporções. Este último funciona, não só como propulsor dos nossos sonhos – e que nos ajuda a cumprir metas e a satisfazer desejos – mas também, e muitas vezes, opera como muleta nas nossas inseguranças, ou até como expansor das mesmas, nomeadamente quando nos tornamos realizadores de longas metragens ficcionais da nossa própria vida, geradas por incertezas colhidas aqui e ali. Podemos então usar a imaginação como escape a medos que se tornaram difíceis de gerir e de enfrentar numa realidade que não desejávamos. E é neste limbo que o ser humano vai aprendendo a viver: razão, emoção; realidade e imaginação.

Talvez as pessoas mais racionais resolvam as problemáticas mais rápida e diretamente, sem andarem tanto às voltas em ideias mais ou menos mirabulantes à procura da saída; os mais criativos, ou os mais sensíveis, recorrem a uma parafernália de atenuantes, na tentativa de colorir alguns dos factos mais rudes e a preto e branco. No final, a saída acabará por ser a mesma, só que uns chegam lá a surfar a onda e a conhecer o mar e o vento, e a levar com água na cara; outros vão logo ao cerne da questão, no fundo do oceano, também arranhados nas rochas, mas mais protegidos em submarinos torpedeantes e de casco racional muito grosso. Mas ambos são dotados de mundos imaginários.

Hoje em dia, com a facilidade das tecnologias de bolso, domóticas e afins, a nossa imaginaçao é potenciada, despoletada, dando aso a uma maior sensação de controlo da vida; até se lhe chama inteligência artificial. Achamos que conseguimos controlar tudo (só por vezes nos esquecemos de controlar a nós próprios, já lá vamos), mesmo o que está fora do alcance da visão, e remotamente: seja chamar o canalizador, encomendar comida para logo à noite, comprar a próxima viagem. Tudo funciona através de um clique, sem necessiadde de interação humana. Os processos acontecem sem vermos, somos bombardeados de informações mesmo sobre o que desconhecemos, e por isso habituamo-nos a imaginar, ou a forçar e a treinar a imaginação.

Vivemos com touchscreens em todo o lado, no telemóvel, no computador, no microondas, no carro. Eles vêm carregados de apps que prometem resposta a todos os dilemas, é rápido e imediato: onde passar o fim-de-semana, qual a melhor solução de crédito, quanto tempo para fazer esta receita, qual o trajeto sem trânsito. Mesmo uma criança de 5 anos, que ainda não sabe usar o seu próprio cérebro, já não precisa de manual de instruções para manusear tecnologias de ponta.

Assim, também as relações sociais têm-se tranformado, provocando uma busca de novos lugares de encontro, de socialidade, de proteção. E de fuga também.

Hoje é fácil “não seguir” quem nos chateia muito, quem mexe com os nossos pontos mais fracos, com as nossas emoções, porém, na ilusão perfeitinha de controlar o outro e, a partir daí, controlar o que se sente (a nós próprios). Projetamos o controlo em algo externo a nós. Estará um millenial preparado para lidar com o maior dos idiotas no seu grupo de trabalho? Ele não vai ter mute, não tem “unfollow”, não tem botão para bloquear. Com tanta distração e ininterruptas aprendizagens, o millenial – a quem até deram excelentes notas na faculdade -, dotado de (in)consciência e comparação ao outro, encara uma grande probabilidade de ter desaprendido de olhar para si.

Estudos nas universidades de Oxford e Cambridge avançam com a denominação de geração “floco de neve”, aquela que se tornou adulta na primeira década de 2000. Estas pessoas classificam-se por uma “extrema sensibilidade aos pontos de vista que desafiam a sua visão do mundo e que respondem com uma susceptibilidade excessiva às menores queixas, com pouca resiliência”. Estas caraterísticas derivam de uma educação sobreprotetora,  de um sentido exagerado do “eu” , de insegurança e catástrofe (“causados pela falta de habilidades para enfrentar o mundo, pela educação excessivamente superprotetiva que receberam e que os ensinou a ver possíveis abusos em qualquer ação e a superestimar eventos negativos transformando-os em catástrofes. Isso os leva a desejarem bloquear-se numa bolha de vidro, para criar uma zona de conforto limitado onde se sintam seguros”). Fonte: revista Pazes; Mistler, BJ et. Al. (2012) The Association for University and College Counseling Center Directors Annual Survey Reporting. Pesquisa do AUCCCD ; 1-188

Nas relações de índole amoroso, sem contrato e cheias de liberdades e opções, torna-se ainda mais complicado no que diz respeito à gestão das emoções: hoje bloqueia-se, amanhã volta-se a adicionar, e porque até se fizeram as pazes entretanto, “amigamos” e “desamigamos”. Bloqueia-se onde? Não é em nós. Não é porque desta vez fizemos um “swipe” para a esquerda, que a história do último encontro falhado vai para a junk box. Existe uma rutura, existe uma perda, e saber lidar com isto não passa por clicar no próximo perfil, bem pelo contrário. Isto só pode causar mossa a longo prazo. A dor não é editável, tomara fosse descartável. A felicidade também não é adicionável nem tem feed automático. No entanto, esta parece ser a selfie na sua mais recente versão da sociedade do facilitismo, do comando na mão, da personalização.

A vida real pulsa fora das telas. Seria sim tão mais simplório se hoje, por não querer gostar mais de ti, pressionasse o botão, e tu desaparecias, na esperança que isso determinasse o que eu sinto ou deixo de sentir. Seria bom? Fosse assim tão cru, e não havia mais tragédias de amor! Nem finais felizes.

Somos seres extraordinariamente dotados de emoção, de sentimentos, de sentidos, de memória, e de saudade! Tudo isto, e que é real, é o que nos “adiciona” ao outro, é o que nos faz “seguir” o outro. Os posts que vão permanecer após o “delete” são aqueles que se publicam por baixo da pele: tudo o que mãos sentiram, o que cheiramos, o que vimos, o que aconteceu em nós quando as pernas fraquejaram, quando a barriga deu de si; todas as vidas que vivemos e morremos pelo outro e, uma vez que se saiba viver assim, nunca mais se exige menos.

Os likes que nos trazem realmente valor são medidos pelo batimento do que trazemos no peito, pela velocidade da corrida do sangue, pelos suspiros mais ou menos ofegantes quando nos abraçamos tantas e tantas vezes… É no mínimo assustador ousar refletir a vida de outra forma, só porque é fácil.

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