Rádio Observador

Rio de Janeiro

Pretérito, mais que Prefeito /premium

Autor
  • José Diogo Quintela

É bizarro. O Rio de Janeiro ter um Prefeito puritano faz tanto sentido como Munique ter um Presidente da Câmara abstémio ou Nova Iorque um mayor narcoléptico.

O Prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, mandou recolher os exemplares do livro de BD “Vingadores – A Cruzada das Crianças”, que estava exposto na Bienal do Rio de Janeiro, por ter uma imagem de dois homens a beijaram-se. Segundo o autarca, uma vez que a obra se destina um público infantojuvenil, não pode ter conteúdos obscenos.

Portanto, temos dois super-heróis. Trata-se de Hulkling, um extra-terrestre, meio Kree, meio Skrull, com capacidade de mudar de forma e força sobre-humana, que usa para esmagar os inimigos; e de Wiccan, um poderoso feiticeiro, capaz de manipular a realidade, criar campos de força e lançar relâmpagos. Fazem parte de uma equipa de super-heróis que passa os dias à bulha com inimigos. E Crivella considera que a obscenidade que pode influenciar negativamente as crianças é um beijo. É possível que já tenha ocorrido este diálogo no lar Crivella:

“Júnior, que você vai ser quando for grande, meu filho?

“Pô, papai, vou ser super-herói como o Hulkling! Pra bagunçar os caras ruins, destruir planetas…

“Muito bem, Júnior! Orgulho do papai!”

“… e celebrar a matança beijando meu namorado, Wiccan!”

“Como assim? Porque não celebrar a matança com um viril chope e uma ida ao baile funk, rolar com as preparadas, mesmo à cabra macho? Não sabe que a homossexualidade é demoníaca? Vá mas é destruir planetas. De preferência, planetas povoados maioritariamente por alienígenas gay!”

É bizarro. O Rio de Janeiro ter um Prefeito puritano faz tanto sentido como Munique ter um Presidente da Câmara abstémio ou Nova Iorque um mayor narcoléptico.

Entretanto, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro começou por proibir a censura do Prefeito. Numa segunda instância, voltou atrás e mandou recolher os livros. Finalmente, a Procuradora-Geral da República solicitou ao Supremo Tribunal Federal que se pronunciasse, tendo o STF anulado a decisão do Tribunal de Justiça do RJ. Ou seja, os livros podem ser vendidos à vontade, sem estarem lacrados em plástico preto.

Isto significa duas coisas: 1) a Justiça brasileira defende a liberdade de expressão; 2) o Prefeito Crivella e seus aliados não percebem nada de crianças. Se percebessem, sabiam que embrulhar um livro num saco preto, selá-lo com lacre e avisar que não é para ser visto por crianças, é o primeiro passo para as crianças quererem vê-lo.

Tenho de dizer que fiquei desiludido com o facto desta tentativa de censura a uma banda desenhada se ter passado no Brasil. Cresci a ler a Turma da Mônica, o clássico da BD brasileira, e espero que este ambiente censório não se estenda à imorredoira obra de Maurício de Sousa. Gostava muito que os meus filhos lessem os mesmos livros aos quadradinhos que eu li, mas não sei se ainda é possível gozar com a Mônica, por ser baixinha e dentuça, ou se não será discriminação em função da aparência física e opressão heteropatriarcal, que obriga as raparigas a conformarem-se aos impossíveis padrões estereotipados de beleza. E duvido que se possa fazer pouco do problema da fala do Cebolinha sem ser acusado de bullying. Ou rir do seu cão, Floquinho, que é tão peludo que nunca se sabe se a boca é rabo, ou vice-versa, pois trata-se de uma clara metáfora achincalhante sobre as pessoas trans. Já para não falar de Cascão, o rapaz que não gosta de tomar banho e é censurado pelos amigos, no que pode ser visto como uma crítica a hippies. E também da Magali, uma menina com distúrbios alimentares. Tudo temas, como se diz agora, problemáticos.

Estou à espera do dia em deixe de ser apropriado dar estes livros a crianças. É que, hoje, quando vejo uma notícia sobre livros censurados, tenho mesmo de abrir o link para saber se é reaccionarismo ou progressismo. Desta vez, a censura veio de um reaccionário que não gosta de homossexualidade de dois super-heróis. Para a próxima, a condenação pode ser porque as personagens principais da história são homens e há poucas mulheres representadas. Ou porque são brancos e faltam minorias étnicas. Ou porque são gays, mas cis. Enfim, mais fácil do que dar beijinhos, só ofender um moralista, seja de que lado for.

O que é estranho é que Crivella é um homem profundamente religioso. Inclusive, bispo da IURD. Logo, alguém que sabe que o momento fundador do cristianismo – a morte e ressurreição de Jesus Cristo – começa, justamente, com um beijo entre dois homens. Sem esse ósculo fundacional entre dois marmanjos barbudos, Crivella não teria chegado onde chegou. Ele tem é de dar graças por haver homens às beijocas. Se Judas não tivesse traído Nosso Senhor, em nome de quem é que Crivella ia fazer os seus sermões retrógrados que o guindaram ao poder? Ou Crivella se retracta sobre o beijo, ou manda também embrulhar a Bíblia.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
PAN

Totalitarismozinho dos anos 40 /premium

José Diogo Quintela
217

Este discurso da emergência climática dá muito jeito em termos políticos. Em primeiro lugar, tudo o que acontece de mal deve-se ao clima. Logo, a culpa nunca é do Governo, é de toda a humanidade.

José Sócrates

António Costa, o da memória má /premium

José Diogo Quintela
1.536

A questão não é os portugueses terem má memória da maioria absoluta do PS, antes é os portugueses não se lembrarem bem do que aconteceu nesse tempo. Se se lembrassem, não votariam nos mesmos marotos.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)