Vamos falar sobre ideais e comecemos pelo princípio: o que é um ideal, como o moldamos e porquê?

Da sua definição vem que um ideal é algo considerado perfeito, aquilo que satisfaz na totalidade a mais querida das nossas aspirações.

Todos temos ideais, ideais de como algo deve ser: o ideal de uma boa mãe, de uma carreira de sucesso, de uma cidade estimulante para se viver ou até de um casal perfeito.

Vivemos com e através desses ideais, conscientemente ou não, porque os herdámos da nossa família ou do nosso contexto. Ao longo da nossa vida, nós próprios os moldamos, tomando referências de pessoas e situações que vamos enfrentando, com as quais nos identificamos, e cujas respostas damos, considerando-as as mais corretas.

Um ideal, porém, não é a realidade.

Um ideal é algo que existe na nossa mente e que tendemos a projetar no exterior, nas pessoas, coisas e situações que nos rodeiam. Imagine aqueles livros para crianças onde há vários pontos numerados, sendo o objetivo conectá-los, criando assim uma figura. A realidade são esses pontos.

Formamos um ideal quando conectamos esses pontos de uma forma que responda ao que precisamos ou queremos pensar sobre uma pessoa, coisa ou situação.

Mas porque falo eu de ideais? Porque 2020 nos atingiu em força e também atingiu, em igual medida, os nossos ideais de vida, das pessoas, da sociedade e do futuro que ambicionamos, individual e coletivamente.

Estamos a vivenciar a queda dos nossos ideais sobre as pessoas ao nosso redor, talvez amigos próximos, familiares, namorados ou colegas, que estão a responder a esta nova realidade de maneiras que não correspondem ao que pensávamos ou esperávamos deles.

Estamos a observar a queda dos nossos ideais quanto à carreira que acreditávamos seguir: já não temos um local de trabalho, o dia-a-dia, o estilo de vida e as atividades de antigamente.

Estamos a perceber a queda dos nossos ideais da sociedade e da economia da qual fazemos parte, alguns de nós olhando dolorosamente nos olhos, pela primeira vez, os detalhes da nossa contribuição para um sistema baseado na extração de valor e na apropriação de recursos naturais para serem transformados em produtos e serviços, e nunca reabastecidos.

Estamos a olhar para a queda dos nossos ideais de líderes, tanto no setor público como no privado, que não estão a responder ao que precisamos e queremos que eles sejam.

Independentemente do cenário com que cada um mais se identifica, seja pela sua experiência direta ou pelos olhos de alguém próximo, provavelmente está ciente de que quando os ideais caem, algo mais se quebra.

Tudo começa com um trigger, um gatilho, algo que uma pessoa diz ou faz, ou alguma mudança numa situação que considerámos imutável, que faz a ideia desmoronar, lançando-nos num profundo sentimento de confusão, frustração, desorientação ou, até, raiva.

É então que algumas pessoas entram em negação, esperando que tudo volte a ser como era e, quando tal não acontece, a luta torna-se real e acende um estado de confusão tão profundo e opressor que cria ansiedade ou nos faz perguntar: “O que ainda é real, se essa pessoa/situação não é como eu acreditei por tanto tempo?

E, finalmente, chegamos ao ponto em que entendemos que quando um ideal de algo ou alguém cai, também cai uma ideia sobre nós, especialmente se essa pessoa ou situação significa tanto para nós que lhe anexamos uma parte da nossa identidade.

Então, que tipo de cidadãos somos nós, numa sociedade e economia tão profundamente baseadas em coisas que não defendemos?

Que trabalhadores somos nós, quando perdemos o nosso estilo de vida e os nossos hábitos?

Que cidadãos somos nós, de uma cidade que é agora tão diferente do que era quando a escolhemos para viver?

Que namorados somos nós, quando a pessoa que amamos e com quem imaginamos um futuro está agora longe daquela imagem interior que tínhamos dela?

Quem somos nós, quando muitas das coisas em que baseamos a nossa identidade deixam de existir ou se alteram profundamente?

Não tenho uma resposta, porque vivo com algumas dessas perguntas, como muitos de vós. Os ideais caem uns atrás dos outros nas nossas vidas, de uma maneira que é única para cada um de nós e para circunstâncias únicas só pode haver respostas únicas.

Mas o que sei é que podemos escolher.

Podemos escolher agarrar com desespero o que resta da imagem caída, da mesma forma que acreditamos numa estrela que não existe mais, mas cuja luz ainda nos alcança.

Ou podemos escolher render-nos à oportunidade que se abre à nossa frente, permitindo que este desmoronamento revele um caminho totalmente novo para nós, que foi percorrido até agora por um roteiro e uma história que expirou há muito tempo, ou que nunca foi, realmente, para nós.

Meg Pagani é uma empreendedora, speaker e strategist italiana. É a fundadora da Impacton.org, uma organização que trabalha na escalabilidade do impacto de modelos sustentáveis e comprovados, e é advisor de projetos focados na criação de uma sociedade 100% inclusiva e regenerativa. Entrou para os Global Shapers em 2016.

O Observador associa-se ao Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial, para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa.  O artigo representa a opinião pessoal do autor, enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.