Rádio Observador

Espanha

Quando os muros caem, caem para os dois lados /premium

Autor
735

A questão levantada pelas eleições na Andaluzia é esta: por que razão deveríamos admitir que compete aos fãs do chavismo e do estalinismo julgar os méritos democráticos dos outros actores políticos?

Durante décadas, a maior parte da Europa ocidental foi governada por partidos que, socialistas ou conservadores, se reviam nos princípios da NATO e da cooperação europeia. Em Portugal, esse “arco da governação” acabou em 2015, quando o PS levou o PCP e o BE para a área do governo. Foi a “queda do muro”, segundo António Costa. Era verdade que os seus novos parceiros não tinham mudado de simpatias norte-coreanas e venezuelanas. Mas desde que respeitassem as “obrigações internacionais”, que importava isso? Todos os votos valiam a mesma coisa. Por detrás, havia uma razão de expediente: com os socialistas em retração por toda a Europa, como governar sem comunistas e radicais? Pelos mesmos motivos e com os mesmos argumentos, Pedro Sanchez, em Espanha, arranjou também uma “geringonça“ com o Podemos e os separatistas.

Tudo correu bem enquanto correu à esquerda. O problema foi quando, à direita, houve igual necessidade. Na Andaluzia, o PP e o Ciudadanos só poderão governar aceitando o apoio de Vox, o partido da direita nacionalista, com quem aliás o PP nem quer negociar. Mas notou-se logo a diferença. O Podemos e os separatistas rejeitam a constituição espanhola e parecem frequentemente disponíveis para ilegalidades e violências. Mas são parceiros respeitáveis de governo. Vox não é. Porquê? Porque, segundo decisão do Podemos, Vox é “fascista”.

A questão andaluza será cada vez mais central na política europeia, porque é óbvio que a direita nacionalista, insuflada pela denúncia da migração ilegal e pela resistência ao “politicamente correcto”, vai integrar maiorias parlamentares e governos, como já aconteceu em Itália ou na Áustria. Pensem nisto: é provável que os conservadores aceitem que os socialistas façam maiorias com comunistas e radicais, enquanto eles próprios se condenam a ficar na oposição, por não ser admissível ter o apoio de nacionalistas? Não é. Os muros, quando caem, caem para os dois lados. Também os votos de Vox valem a mesma coisa. Foi esta a porta que Costa e Sanchez abriram.

É o fim do mundo? É o fim de um mundo, em que a direita era dominada por conservadores e liberais, mas não é necessariamente o fim do mundo. Basta que nunca haja dúvidas de que nenhuma solução de governo, à direita ou à esquerda, será aceitável na Europa, se visar limitar direitos cívicos ou comprometer o enquadramento internacional definido pela NATO e pela cooperação e integração europeias.

Qual o perigo de partidos como Vox? A política que vive da demagogia é sempre perigosa. Mas comunistas e radicais, com a sua velha manha soviética de tratar como “fascistas” ou acusar de “branqueamento” quem quer que não pense como eles, não são um bom guia a esse respeito. Como já tantos historiadores explicaram, não estamos perante os fascismos dos anos 30. A nova direita nacionalista insiste em que as sociedades ocidentais devem cultivar as identidades nacionais e os modos de vida tradicionais e fazer valer as fronteiras, se necessário limitando a integração internacional. Não haverá outros argumentos contra tais ideias, a não ser confundi-las com o “fascismo”? Os fascismos dos anos 30 eram uma coisa muito diferente: repudiavam a democracia, diziam-se revolucionários, cultivavam o militarismo e a violência. Vox diz acreditar na democracia, na liberdade e no Estado de direito. Os fascistas, no seu tempo, jamais disseram isso. E se não acreditamos no que diz Vox, porquê acreditar no que diz o Podemos?

Mas estamos no reino da má fé. O PP e os Ciudadanos não podem ter o apoio de Vox na Andaluzia, mas o Syriza governa a Grécia desde 2015 com um partido nacionalista muito mais exaltado, o Anel, e ninguém se preocupa com a democracia na Grécia. A questão andaluza, portanto, é outra: por que razão deveríamos admitir que compete aos fãs do chavismo e do estalinismo julgar os méritos democráticos dos outros actores políticos? E, mais ainda, porquê deixá-los transformar qualquer polarização política numa situação de guerra civil?

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Racismo

A racialização da política é isto /premium

Rui Ramos
128

As democracias têm de tratar todos os cidadãos como iguais, com os mesmos direitos e obrigações, e ajudar os mais pobres e menos qualificados, sem fazer depender isso de "origens" ou "cores".

Rui Rio

Portugal continua a não ser a Grécia /premium

Rui Ramos
396

Quando a Grécia se afundava em resgates, Passos impediu que Portugal fosse a Grécia. Agora, quando a Grécia se liberta da demagogia, é Rui Rio quem impede que Portugal seja a Grécia. 

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)