No dia 27 de Setembro de 1968, Marcello Caetano era empossado como Presidente do Conselho, sucedendo a Oliveira Salazar, cujo longo consulado havia marcado o país ao longo de mais de três décadas. Nesse dia, Caetano anunciava diante da Rádio e Televisão Portuguesa, que «o país habituou-se durante largo período a ser conduzido por um homem de génio, de hoje para diante, tem de adaptar-se a governos de homens como os outros».

De facto, afigurava-se de extrema dificuldade romper com um legado, uma cultura política, uma forma de estar e de fazer que há muito estavam cristalizadas na vida do país. Ainda assim, era latente uma espectativa generalizada, de que o eminente Professor de Direito, fosse capaz de “abrir o regime”, isto é, de combater a estagnação política e cultural, de progressivamente extinguir os meios repressivos, e sobretudo de encontrar uma solução pacífica que pusesse termo à guerra de África.

No período que ficou conhecido como a «Primavera Marcelista», houve um lema que o regime adotou e que ficou célebre: a ideia de «Renovação na Continuidade». Mantendo as mesmas lógicas, herdadas constitucional e politicamente de um regime que fora gizado à imagem do seu fundador, prometia-se inovar, modernizar, liberalizar, transformar. Acontece que rapidamente a primavera se tornou outono, e as espectativas iniciais, de uma transição pacífica, de democratização, e de inversão de posições, foram sendo progressivamente esquecidas, e o desalento tomou conta daqueles que esperavam que se fizesse diferente, mantendo inalterados os moldes.

A ideia de Renovação na Continuidade, tornou-se assim, no paradoxo inaudito da nossa História Contemporânea. Sonho impossível de ser concretizado. Esperança gorada daqueles que nela tiveram fé. Missão impossível para os que a idealizaram, como os deputados da então «ala liberal». Ideia que se tornou tão impopular, que da Direita radical à esquerda, dos «ultras», aos comunistas, todos a criticaram, condenando-a ao fracasso perpétuo.

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E assim foi, durante muito tempo. Na verdade, até este fim de semana. Pedro Nuno Santos tirou da gaveta – nunca saberemos se de forma intencional – a velha expressão de Marcello Caetano, para a enquadrar no contexto da sua sucessão a António Costa. Com efeito, não deixa de ser para nós interessante, do ponto de vista analítico, estabelecer uma linha comparativa entre ambas as situações, que aparentemente não teriam nenhum ponto de contacto.

Porém, se virmos com atenção, já fez oito anos desde que António Costa tomou posse como Primeiro-Ministro. Parece pouco, mas à velocidade a que os acontecimentos políticos no mundo hodierno se desenrolam, oito anos são uma eternidade. Mesmo do ponto de vista interno, nas estruturas do próprio Partido Socialista, o cristalizar da mesma liderança por vários mandatos faz-se ressentir em imobilismo e habituação.

Vejamos a ginástica retórica que Pedro Nuno Santos tem vindo a fazer para conciliar a ideia de que representa uma continuação do governo socialista, mas que se afasta, e não se responsabiliza, pelos seus erros e falhas:

Por um lado, arvora-se como herdeiro político de António Costa, tecendo-lhe enamorados panegíricos e reclamando para si os louros da constituição da «estável geringonça». Ao mesmo tempo, porém, repele rótulos de radicalismo, classifica-se como um homem da área do socialismo democrático, branqueando as incomportáveis posições do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português, partidos com os quais nunca teve pejos de se sentar à mesa das negociações. Não se pode querer federar as esquerdas num dia, e ser social-democrata noutro. Todas as posições são defensáveis, agora o novel Secretário-Geral do PS tem é que se decidir.

Orgulha-se do trabalho feito e dos governos em que participou, mas diz que há muito que fazer, muitos problemas para resolver e «muito caminho para andar» – inclusive em pastas que tutelou. Fica a questão: se existiam então tantos problemas, porque não os resolveu? Com tantas críticas, como é que ainda avalia positivamente este legado?

Mas há mais: como é que se pode bater o pé com força, já com espírito de merceeiro eleitoral, pela recuperação integral do tempo de serviço dos professores – aspiração justíssima da classe – mas não ser capaz de se levantar para votar a favor desta mesma recuperação? Afinal, é ou não é a favor? Se for Primeiro-Ministro, assumirá esse desígnio, ou resguardar-se-á numa qualquer outra desculpa? Perguntas incómodas, que devem ser levantadas no tempo da campanha, a bem da verdade, da honestidade, de sabermos se há, de facto, renovação ou se seguimos a continuidade das políticas de ocultação da verdade.

Apesar disto, talvez o assunto que mais ponha a tremar as pernas, já não aos banqueiros alemães, mas ao «neto de sapateiro», seja mesmo o dossiê da gestão política (danosa) da TAP, que levara, vamos para um ano, à sua demissão. Percebemos bem o descalabro que vai no largo do Rato, quando se escolhe para líder aquele que há um ano, já nem para Ministro da República servia.

Nisto fica a dúvida: Renovação ou Continuidade? Ambas ou nenhuma?

Assim, caminhamos, mais uma vez, nesta paradoxal dialética entre tentar mostrar que se é diferente, mas reclamando a herança do eventual bem que se fez. Numa espécie de memória seletiva, de esquizofrenia patológica, reivindica-se o lado positivo, e foge-se do negativo, como se não fosse nada connosco, como se pudessem ser realidades distintas.

Entramos num novo ciclo político: ambíguo, indefinido, imperscrutável. Para aqueles, como eu, que vêm nas entrelinhas da História estruturas de repetição similares, não estranharemos ver estas perplexidades, estes jogos de palavras, este “não te conheço, mas conheci-te tão bem”, esta fábula em que nos querem fazer querer que é possível fazer diferente, mantendo tudo na mesma.

Talvez alguns caiam, mas os insurretos do pensamento não se deixarão armadilhar na esparrela. Ou há renovação ou há continuidade. Não há, como nunca houve, ambas numa só. Ou há mudança ou há paralisia. Ou há alternância ou há alternativa. Não se espere novidade com os mesmos de sempre. Não se espere diferente, com as lógicas do costume.

A 10 de Março também se joga isto: ao inverno Costista, que padecemos, suceder-se-á alguma coisa: ou uma nova glaciação socialista, ou a «vitória de uma nova alvorada, uma Lusitânia de novo florida». Esperamos por uma nova Primavera – a mais bela das estações, aquela que nos prometeram nos «amanhãs que cantam» – vai para 50 anos, aquela que fará cumprir Portugal. Daqui a 3 meses temos mais uma chance de romper com os do costume. Agora, portugueses, a bola está do vosso lado!