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Winston Churchill

Rivalidade e Civilidade /premium

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Os regimes democráticos, sendo obra comum de partidos rivais, assentam simultaneamente na rivalidade e na civilidade.

Na passada quinta-feira, decorreu no Palácio da Cidadela de Cascais a 4ª Palestra e Jantar Winston Churchill do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Um dos aspectos mais marcantes foi a surpreendente sintonia entre a intervenção do orador convidado (John M. Owen, IV, da Universidade de Virginia), que falou antes do jantar, e Marcelo Rebelo de Sousa — que falou depois do jantar, não tendo podido assistir à palestra, dado que a sua última Aula de Sapiência na Universidade de Lisboa se prolongara muito para lá do previsto.

Seria difícil resumir aqui os argumentos do professor americano e do nosso Presidente da República. Mas pode seguramente ser dito que, sem conhecerem as intervenções um do outro, convergiram vincadamente em pelo menos quatro pontos centrais.

Em primeiro lugar, ambos convergiram no diagnóstico da actual situação mundial: estamos a viver um período de perturbação da ordem mundial que emergiu da vitória aliada na II Guerra e da queda do Muro de Berlim em 1989. Ambos sublinharam que aquela perturbação tem origens exteriores ao Ocidente, mas também origens internas que não são menos preocupantes.

Ambos convergiram, em segundo lugar, na caracterização da perturbação em curso no Ocidente: a emergência de radicalismos rivais que alimentam na praça pública e no panorama político-partidário um clima de ódios mútuos irracionais. E ambos sublinharam que os regimes democráticos, sendo obra comum de partidos rivais, assentam simultaneamente na rivalidade e na civilidade: rivalidade entre propostas políticas diferentes, civilidade assente na comum aceitação de regras gerais de boa conduta — regras que são em parte constitucionais,  e que, em parte decisiva, são simplesmente regras de boa educação.

Em terceiro lugar, e talvez ainda mais surpreendentemente, ambos convergiram nos traços fundamentais do que deve ser feito. Devemos condenar o radicalismo e a incivilidade, mas devemos também ser capazes de entrar em conversação com os eleitores que estão seduzidos pelos radicalismos. E devemos ser capazes de descobrir as causas do desconforto desses eleitores. E devemos ser capazes de promover um debate aberto e tranquilo sobre propostas racionais para tentar reformar as origens desse desconforto.

Em quarto e decisivo lugar, ambos convergiram vincadamente na necessidade de reafirmar os valores comuns do Ocidente e da fundamental aliança euro-americana que sustenta estes valores. Curiosamente, John Owen e Marcelo Rebelo de Sousa sublinharam especificamente a necessidade de preservar a estreita cooperação entre a União Europeia e o Reino Unido, apesar do Brexit.

Este mesmo ponto foi significativamente enfatizado também nas breves palavras do  Chefe de Missão Adjunto da Embaixada britânica em Lisboa, Ross Mathews, que participou em todo o evento e falou após o jantar. (O novo Embaixador britânico em Lisboa, não tendo ainda apresentado Credenciais ao Presidente da República, não pode por isso ainda assumir funções públicas como Embaixador).

Em suma, a sessão da passada quinta-feira, no Palácio Presidencial da Cidadela de Cascais, foi um momento inspirador. Além de um pôr-do-sol magnífico e apaziguador, e de uma distinta refeição proporcionada pela Messe da Marinha de Cascais, tivemos ainda o raro privilégio de duas lições magistrais sobre os regimes democráticos ocidentais e sobre o nosso dever de os defender.

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