Ao princípio, António José Seguro era o candidato da “moderação”. Desde domingo, porém, que o candidato da “moderação” se tornou o candidato da “democracia”. As duas coisas não são compatíveis. Um candidato moderado não pode começar por se proclamar dono único do regime, e excomungar todos os que não se lhe submetem como “inimigos da democracia”. Essa não é uma candidatura moderada, mas uma candidatura de guerra civil, de exclusão e de ódio, profundamente iliberal. Era assim que Maduro fazia campanha na Venezuela: todos os seus adversários eram “fascistas”, e “agentes de Trump”. É nesta caricatura venezuelana que os seus adesivos de segunda volta ameaçam transformar a candidatura de Seguro.
Devemos estar surpreendidos? Não. Era fatal. Os derrotados de domingo pretendem parar André Ventura, mas sem dar força à pessoa ou às ideias de Seguro. Para os comunistas, Seguro é demasiado “liberal”; para os liberais, é demasiado “socialista”; para muitos socialistas, não é da “família” certa. A maneira manhosa de justificarem o voto sem se contradizerem, e sobretudo sem enaltecerem Seguro, é fingirem que a democracia está em perigo, e que do outro lado está um filme a preto e branco de Leni Riefenstahl: o Partido Nazi em Nuremberga, Hitler prestes a invadir a Polónia, o fim do mundo.
Só António José Seguro pode pôr termo a este psicodrama ridículo e desonesto: esclarecer que a sua candidatura se define pela pessoa e pelas ideias do candidato, e não porque a democracia esteja à beira de ser devastada por uma praga abominável. Mas é por isso que devemos estar preocupados. Seguro parece uma pessoa estimável. Mas deu, em 2013, prova de fraqueza perante a pressão dos seus camaradas socialistas. As circunstâncias não eram fáceis então, mas também não são fáceis agora. Seguro já esgotou os eleitores de esquerda das eleições de Maio. Para arranjar votos fora desse reduto, perante um Ventura que se apresenta como o “candidato da direita”, pode ser tentado a tocar o tambor da guerra civil. Não é moderado quem quer, mas quem pode. A moderação não é a timidez dos fracos, mas a ponderação dos fortes. É Seguro um candidato forte? Vamos ver.
Dir-me-ão: mas André Ventura também vai dividir e polarizar. Pois vai. Mas depende de como dividir e polarizar. Há divisões e polarizações que respeitam os termos da democracia, e são salutares para o regime. A divisão entre direita e esquerda, por exemplo, ou sobre políticas públicas. Se Ventura se afirmar como o candidato da direita, contra um Seguro de esquerda, se fizer de Seguro o representante das políticas falhadas dos últimos trinta anos, de que Seguro não é capaz de se distanciar – Ventura estará apenas a apresentar-se, dentro da normalidade democrática, como uma alternativa a Seguro e como uma mudança em relação à política dominante até há pouco tempo. A democracia é isso. Da mesma maneira, se Seguro se oferecer como um candidato centrista (não querendo aparecer como de esquerda), e fizer de Ventura a face de um reformismo que ele, Seguro, recusa, também estaria a dividir e a polarizar, mas em termos democráticos. Outra coisa é reivindicar-se como encarnação única da Democracia e da Moral, e fazer da sua vitória uma questão de vida ou de morte do regime e do mundo. Isso é que não é democrático nem decente.
Há cinquenta anos, em 1974, António José Saraiva tentou explicar este facto elementar a uma esquerda para quem “democratizar” era sinónimo de proibir, sanear e prender a direita: um regime que assenta na exclusão de uma parte importante do país nunca poderá ser uma democracia. Os neo-seguristas de segunda volta ainda não perceberam isto. E Seguro?