No passado dia 17, no carro, acompanhava a Rádio Observador. Miguel Pinheiro (MP) dialogava com Sérgio Sousa Pinto (SSP) sobre o reconhecimento da Palestina. A certa altura, MP perguntou-lhe o óbvio: como é possível que o Governo português, em julho, há escassas semanas, tivesse fixado condições muito claras para o reconhecimento, e agora, de repente, declare que não há obstáculo algum?

Recordemos as condições de julho: libertação dos reféns, dissolução do Hamas, realização de eleições. Eram condições sensatas, embora irrealizáveis no curto prazo. O que mudou entre julho e setembro?

Nada. Os reféns continuam em cativeiro, em condições bárbaras. O Hamas não desapareceu, continua armado, a controlar pelo terror a população de Gaza, e a fazer dela escudo humano, negócio, e figurante da mais básica propaganda. As eleições? Uma miragem muito ao longe, até porque, a acontecerem agora,  seria o grupo terrorista a vencê-las.

E, ainda assim, o dr. Rangel anunciou que, afinal, não há entraves. O que em julho era essencial, em setembro já é descartável. O Governo desdiz-se com a maior das naturalidades, sem sequer tentar disfarçar.

É verdade que aquele comunicado inicial era uma fraude deliberada: não passava de um artifício para ganhar tempo, uma janela de Overton para normalizar a ideia, pois bastaria a promessa vaga de cumprir, e logo as condições se dissolveriam no ar. Hoje a fraude está exposta. O que antes era impensável, passa rapidamente a política em vigor.

Tenho, devo sublinhar, enorme consideração por Sérgio Sousa Pinto. É um político raro: frontal, racional, geralmente alheio às manobras de poleiro. Um tribuno de primeira água, capaz de esmagar um adversário mal preparado. Precisamente por isso, a sua opinião neste programa deixou-me perplexo, aquela sensação que nos chicoteia como quando pisamos um degrau que não está lá.

Perante a evidência da contradição governamental, em vez de a encarar de frente, Sousa Pinto optou pela litania. Não a litania improvisada e constrangedora de um militante estudantil, mas a versão mais polida, com riqueza lexical, de alguém que domina magistralmente o discurso.

E, no entanto, era a mesma ladainha de sempre: o “genocídio”, as imagens lancinantes, as multidões em fuga, o “sacana do Netanyahu”, a “extrema-direita”. Uma narrativa pronta-a-consumir, quase demagógica, como se de um lado estivesse o mal absoluto e do outro os deserdados da terra.

Este ponto cego da razão não me é estranho. Conheço pessoas brilhantes, analíticas, rigorosas em quase todos os domínios, que, ao ouvirem a palavra “Israel”, perdem o tino. Transformam-se em recitadores de slogans. Como se desligassem a razão e ligassem uma cassete velha que os teletransporta para uma qualquer flotilha virtual de lunáticos.

MP, paciente, tentou devolvê-lo ao essencial: a incoerência do Governo. Tentou recordar-lhe que o deslocamento de populações em zona de combate não é genocídio, nem crime, nem maldade,  mas apenas um normal expediente humanitário levado a cabo por qualquer organização militar que cumpre o jus in belo. Comum em qualquer guerra, e nesta por maioria de razão. Até nos incêndios, para não ir mais longe.

Tudo inútil. Sousa Pinto, estava já longe, em velocidade de cruzeiro, e insistia que o reconhecimento era “simbólico”, que se destinava a “isolar Israel”.

Ou seja, não era para resolver um problema, mas para castigar o estado judeu.

Trata-se, a meu ver, de uma inversão completa: Para SSP, o problema não é o Hamas, não é o grupo terrorista que desencadeou a guerra, que mantém reféns e submete a sua própria gente à fome a uma ditadura fanática. O problema é afinal… Israel.

No seu discurso não houve lugar para o Irão, para os proxies, para o anel de fogo que fecharam sobre Israel. Não houve lugar para os milhares de mísseis lançados sobre civis. Não houve memória do genocídio, esse sim, de 7 de outubro de 2023, quando o Hamas massacrou famílias inteiras, filmando orgulhosamente a chacina para difundir online. Não houve qualquer referência ao objectivo mil vezes declarado de exterminar os judeus. Não houve espaço para a História, antiga ou recente, ou para o mais elementar senso comum.

Em contrapartida, houve espaço para referir imagens produzidas pelo Hamas, números fornecidos pelo Hamas, comunicados filtrados pelo Hamas. Houve espaço para repetir, como palavra mágica, a mentira do “genocídio”. Houve espaço para esquecer que o único genocídio, recente e real, foi cometido pelo Hamas contra judeus indefesos.

E isto, sim, impressiona-me: o esquecimento selectivo. A forma como homens inteligentes aceitam como verdades absolutas os comunicados de um grupo jihadista dos Irmãos Muçulmanos. A facilidade com que invocam a palavra “genocídio” sabendo que ela foi lançada logo a seguir ao massacre de outubro, precisamente para tentar deslegitimar qualquer resposta israelita.

E esquecem que Israel declarou, com toda a clareza, os seus objectivos: libertar reféns, eliminar a capacidade militar do Hamas, impedir que o massacre de outubro se repita. Objectivos racionais, legítimos, defensivos.

A hostilidade, porém, não se dirige ao Hamas. Dirige-se a Israel. É o regresso a um velho e assustador padrão: isolar o judeu. Antigamente isolava-se o judeu da rua. Hoje isola-se o judeu das nações. O padrão é o mesmo, só o palco mudou.

Não me surpreende que três relatores da ONU, Navi Pilay, Miloon Kothari e Chris Sidoti, todos activistas anti-israelitas com registo antigo e consistente de declarações antissemitas, tenham inventado um “genocídio” em Gaza. Foram nomeados precisamente por isso, pelo mesmo critério enviesado que ofereceu palco à inenarrável Francesca Albanese. O que me surpreende é que pessoas capazes de pensar por si mesmas, aceitem estas personagens e os seus panfletos como árbitros morais. Nenhum deles esteve no terreno, nenhum deles ouviu Israel, limitaram-se a fazer cherry-picking de “notícias” fornecidas, em última análise, pelo Hamas.

E volto sempre à mesma interrogação: por que motivo, quando o assunto é Israel, se apaga a lucidez de tantos? Que mecanismo profundo leva, ao longo dos séculos, pessoas instruídas a desligar a razão sempre que os judeus surgem na equação? Por que motivo o radar moral de milhões só capta Israel, um pequeno país entre os duzentos do planeta? Basta olhar para o que se passa em Espanha para perceber como começa o que aconteceu na Alemanha nas décadas de 30 e 40 do século passado.

O imenso dinheiro do Qatar compra campanhas de ódio, sim. Mas não explica o colapso intelectual a que assistimos. Não explica o genocídio da razão.

E esse genocídio da razão, tão antigo quanto o próprio antissemitismo, tão resistente a factos como sempre foi, deveria indignar-nos a todos. Porque, no fim, o que está em causa não é apenas Israel. É a nossa própria capacidade de distinguir a realidade da propaganda, a verdade da mentira, a justiça do ódio.

E se até os mais racionais se deixam arrastar por slogans, então não é apenas Israel que fica isolado. É a própria razão.