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Sexta-feira, 9 de Abril de 2021. Assistimos, impotentes, a mais um cruel espetáculo da natureza, predador versus presa: polvo vs cardume de onze milhões. Somos parte do corso que nada pôde fazer senão servir de alimento para a besta dos oito tentáculos.

No intemporal Sermão de Santo António aos Peixes, António Vieira dá-nos a conhecer alguns traços da viscosa fera: “O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta (…) o dito polvo é o maior traidor do mar.”

É um animal curioso. De figura frouxa e pouco firme, tem na sua boca um arsenal de ferramentas, variadas como as de um canivete suíço. É com todos esses recursos que paralisa e devora as suas vítimas. Sobre a égide da sedutora brandura, aprisiona os que acabam no engodo fatal.

O mandato, perdão… a esperança de vida do polvo não é promissora. Vive um a dois anos, alguns chegam aos quatro, mas são raros. O pobre coitado morre em tenra idade, mas pelo caminho deixa 56 mil a 78 mil sucessores, perdão… ovos.

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Desconversando um pouco, tentemos descrever o polvo. Difícil, aliás, quase impossível senão através de rabiscos como os que foram previamente referidos: “figura frouxa e pouco firme.” O todo não se traça facilmente, mas as partes sim.

Os tentáculos estão revestidos de ventosas. Sem ventosas, os tentáculos são mero adorno e vice-versa. No fundo, os órgãos do polvo entreajudam-se num repetido ciclo de favores, é deste modo que o todo funciona.

Então e a tinta?! Em último lugar, o atributo mais caricato. Curiosamente, o molusco em causa não é o único pintor da sua espécie, mas porque é nele que hoje estamos centrados, assim continuaremos.

Da tinta podem brotar magistrais obras, mas o polvo nunca foi dotado de sensibilidade estética, por isso, cinge-se a cuspir corante e a cegar as suas presas. Fá-lo por proveito próprio, esconde-se nesse manto negro, e é atrás do cortinado que cobardemente arquiteta o destino fatal das suas vítimas.

Não, o polvo não é nenhum Da Vinci nem nenhum Picasso, não há laivos de originalidade na sua obra, só escombros e destroços que esse Kraken vai deixando por onde passa.

Surge uma última questão… Como pode o polvo, sendo um só, apropriar-se de um cardume tão maior do que ele? A resposta é simples e curta: o cardume está desorganizado. Não só está desorganizado como acaba por comungar do espírito do polvo. A rémora é um bom exemplo, acompanha o tubarão, facilmente seu predador, para todo o lado. Como a rémora, há dezenas de outros peixes subordinados à passividade e à cobardia, cúmplices do maquiavélico princípio do favorzinho.

Um cardume, unido na sua diversidade, está apto para derrotar vários polvos. A chave está precisamente aí, na união, no desprendimento da mentalidade dos obséquios e gentilezas. Mude-se a estratégia e, ao invés de tachos, temos um polvo no tacho.