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Agora que a Comissão Nacional de Eleições confirmou a candidatura de Samora Machel Jr., que tem sido alvo de críticas e elogios pela (des)obediência por não cumprir os estatutos do seu partido, a Frelimo, e aceder ao convite da sociedade civil para encabeçar a lista da Associação Juvenil para o Desenvolvimento de Moçambique, há uma pergunta que não se quer calar: o que farias se estivesses na posição de Samito?

Há uma corrente de opinião que critica o filho do primeiro Presidente moçambicano por não respeitar o que ditam os preceitos do partido a que ele e a sua família estão vinculados desde que o então movimento surgiu no período colonial. Há outra que apoia a sua decisão de concorrer contra o próprio partido, mesmo perante eventuais sanções disciplinares impostas pelos estatutos. São vários os argumentos apresentados de parte a parte. As justificações de ambas correntes passam, por um lado, pela necessidade de respeito pelas normas para possivelmente não se abrir precedentes, olhando para a posição que a sua família ocupa no partido e na sociedade, e, por outro, pela importância de haver esse tipo de afronta no seio da organização perante uma situação de injustiça para se demonstrar a vitalidade democrática interna.

Mas o posicionamento de Samito remete para outra questão: como é que sendo membro de uma organização cinquentenária, que estatutariamente impele os jovens a participarem em escrutínios com regras claras, se devia comportar depois de ver as suas pretensões serem abruptamente anuladas eventualmente por alguns dos seus pares que decidiram primar pela inflexão das regras internas para beneficiar um concorrente mais velho e exclui-lo deliberadamente numas eleições pouco transparentes?

Deveria o excluído rebelar-se ou calar-se para sempre e seguir a vida por ainda ser jovem?

Há quem até considere que algumas pessoas “de repente” criaram um “mito urbano” ao achar útil apostar-se mais nos jovens em detrimento de idosos, mesmo que os últimos possam ter experiência governativa e capacidade de inovar.

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Mas face ao que está a acontecer no partido no poder em Moçambique, como é que um jovem (e seu grupo) rejeitado faz(em) a gestão de expectativas da(s) sua(s) vida(s)? Poderá ter coragem e capital político suficientes para proximamente (re)conquistar alguma ala de modo a prosseguir com os seus planos? Com que forças e que autoridade moral terá para reconvocar os seus seguidores para possíveis embates futuros?

A decisão de Samito terá sempre várias leituras. Qualquer tentativa de buscar respostas acabadas pode levar ao reducionismo de um problema que não encontra solução fácil até para a própria Frelimo, hoje dirigida por Filipe Nyusi.

A opção que o filho de Samora Machel assumiu é o que provavelmente se pode chamar de Bushido, o famoso código de honra seguido pelos samurais, que primavam por uma morte dolorosa e íntegra em respeito ao nome pessoal e o da família.

Dependendo da rigidez dos responsáveis pelo grupo que o preteriu na Frelimo, essa opção de encabeçar a lista da Associação Juvenil para o Desenvolvimento de Moçambique pode representar autoflagelação. Mas vale lembrar que no seu código de ética os samurais sabiam que era preferível morrer com dignidade a viver sem a mesma. Por isso deve-se questionar se não será a Frente de Libertação a apunhalar o Samora(i), visto que este demonstrou ser uma pessoa muito rígida moralmente, tal como os originais samurais.

Mesmo que o resultado das autárquicas de Outubro não seja favorável para Samito, à Frelimo só caberá uma saída: saber reinventar-se e pautar pela adopção de uma estratégia inteligente, uma espécie de coligação pós-eleitoral para a sua própria sobrevivência enquanto movimento. Convocam-se as regras criadas em 1962 em Dar-es-Salaam, na Tanzânia, na fundação da Frente de Libertação de Moçambique.

Jornalista moçambicano residente em Portugal