O ataque dos EUA ao Irão é um rude golpe nas memórias de infância da minha geração. Quando éramos crianças e alguém queria fazer equipas para jogar à bola, em vez de uma app que selecciona os jogadores através de intrincados algoritmos (aposto que, se não existe, um choninhas qualquer leu isto e já se pôs a programá-la), cantávamos uma lengalenga sincopada que, ao terminar, indicava o responsável por começar a escolher. Havia os clássicos “undolitá” ou “anani ananão”, mas a minha predilecta era “um aviãozinho militar”. Nesta cantilena, uma criança avança com “um aviãozinho militar atirou uma bomba ao ar. A que terra foi parar?” A pergunta é respondida por outra criança, que lança o nome de uma localidade ao calhas, Paris ou Vila Nova de Foz Coa, por exemplo. Consoante o número de sílabas do sítio em questão, a contagem irá parar na criança eleita. Era uma lengalenga que me agradava pela sua imprevisibilidade geográfica. A bomba podia cair em qualquer lugar, pois faz parte da natureza dos bombardeamentos. Antes, os aviões tinham pouca visibilidade, estavam a ser alvejados pelas defesas anti-aéreas e faltava capacidade de guiar a bomba depois de lançada. A ladainha espelhava essa dúvida e isso encantava-nos, fartos do tédio de cantilenas básicas com o “pimpuneta pitapitapituxa”.

Isso agora acabou. O raid aéreo perdeu todo o seu encanto. É uma missão administrativa. Dois tipos levantam num B2, voam 30 horas até ao Médio Oriente e despejam um par de petardos de 13 toneladas que transformariam a Serra da Estrela na continuação da planície alentejana. Isto com a precisão ao centímetro de um daqueles gordos campeões dos dardos. (Nunca são magros, aposto que a barriga serve de lastro para manter o equilíbrio quando se debruçam para a frente). Na IIa Guerra Mundial, os pilotos de bombardeiros eram autênticos heróis, aliavam perícia a uma coragem física sem limites. De cada vez que saíam para uma missão, sabiam que podiam não voltar. Os pilotos de hoje sabem que também podem morrer, mas é de tédio. Fechados no cockpit durante tanto tempo, ao fim de um par de horas já esgotaram a conversa. A única tarefa é irem verificando o Waze que os está a guiar até ao alvo.

Não sei se os americanos estão muito satisfeitos de terem de intervir neste conflito, mas tem mesmo de ser. São os únicos com a tecnologia para destruir instalações debaixo de uma montanha. Os israelitas só têm a capacidade militar para destruir instalações que depois ficam debaixo de uma montanha, com se tem visto em Gaza.

Porém, este ataque dos EUA, no seguimento dos que Israel tem vindo a fazer desde a semana passada, é precipitado. Ainda estamos em 2025, é muito cedo para isto. Vejamos: foi no final de Junho de 2017, durante as habituais manifestações anti-israelitas no Irão (o equivalente aos Santos Populares de cá, também mete folia e foguetes), que descerraram o relógio que mostra o tempo que falta até se dar a aniquilação do Estado de Israel. Na altura, pelas contas dos iranianos, faltavam 8411 dias até ser obliterado da face da terra. A destruição de Israel, profetizada pelo Líder Supremo Ali Khamenei em 2015, está agendada apenas para 2040. Ora, faltando ainda 15 anos, qual é a pressa? Podiam ter esperado mais um bocadinho.

O problema dos iranianos é que são gente séria, honram a sua palavra. Quando, em 1988, o aiatola Khomeini decretou uma fatwa sobre Salman Rushdie, condenando-o à morte por ter escrito “Os versículos satânicos”, o escritor entrou para a clandestinidade. Viveu foragido durante anos, com protecção policial 24 horas por dia. Até que, ao fim de mais de duas décadas, afrouxou a segurança. Khomeini entretanto morrera, o Irão parecia mais descontraído e Rushdie deve ter achado que já se tinham olvidado dele. Até que, em 2022, foi mesmo vítima de um atentado que só não o matou por falta de jeito do homicida. Portanto, quando o Irão promete destruir, sabemos que pode demorar, mas pelo menos vai tentar.

Há quem diga que o Irão não está a construir uma bomba nuclear, pela simples razão de que o Irão diz não está a construir uma bomba nuclear. A lógica é simples: devemos acreditar no que o Irão diz. Infelizmente, esse argumento esbarra noutras declarações do Irão, nomeadamente aquela em que garante que vai destruir Israel. E agora? Se o Irão diz a verdade, então quer destruir um país, mas não está a produzir a arma mais eficaz para o fazer. Se o Irão mente, então não quer destruir Israel, mas está a construir uma arma nuclear para outro efeito que não para atacar Israel. Das duas, uma: ou os ataques servem para proteger um país da extinção, o que é sempre um objectivo meritório; ou servem para proteger vários países de ataques de uma potência que tem muitos inimigos na região. Também não é um mau desiderato.

Nota final para dar os parabéns à Mossad, que não só sabe que o Irão está a construir a bomba, como descobre onde moram os cientistas e as chefias militares responsáveis. Isto a milhares de km de distância. E pensar que, ainda nem há dois anos, não desconfiou que o Hamas estava a preparar o ataque de 7 de Outubro a menos de 5 km de Israel. Parecem os jogadores quando há chicotada psicológica. Com o antigo treinador eram uns nabos, com o novo são todos Ronaldos. Ou então precisam só de óculos para ver ao perto.