Eu não ando lá muito bem. E descobri que a minha vizinha também não está grande coisa. Minha melhor amiga também tem enfrentado alguns obstáculos consideráveis. E minha avó vem sentindo uma melancolia profunda. Um amigo disse que não tem vontade nenhuma de sair da cama. Meu tio disse que está de saco cheio de absolutamente tudo.

Lentamente, fui-me dando conta de que, nessa reta final de um ano tão, tão difícil, estar mal não é a exceção, é quase a regra. E isso é uma coisa interessante para pensarmos: os que estão mal não estão sozinhos e o que estão bem precisam ter a compreensão de que isso é um verdadeiro privilégio (em alguns casos, também uma conquista) e que é preciso ser solidário com os demais neste momento.

Está difícil. O fato de termos recuperado uma parcela da nossa liberdade nos últimos meses não pode ser confundido com um falso regresso à vida anterior. Longe disso. E também é preciso lembrar que a vida anterior também já tinha problemas, desafios e dificuldades. É preciso ter calma, respirar fundo, viver um dia de cada vez, sem uma expectativa constante de melhora significativa (mas sem perder de vista a linha que divide a tristeza da depressão).

E na entorpecente era das redes sociais, em que nos deparamos o tempo inteiro com ostensivas imagens de pessoas supostamente felizes, plenas e realizadas, fica ainda mais difícil não nos sentirmos profundamente imersos nas nossas tristezas, comparadas com a alegria constante que nos é imposta. É preciso entender que há ali uma ficção que nos leva a acreditar em cenários que, no fundo, não existem.

Acabamos de sair de setembro, também conhecido como setembro amarelo, o mês de consciencialização sobre a importância de falarmos sobre a saúde mental e sobre a prevenção ao suicídio. Ainda fico impressionada com o tão pouco que se fala sobre a tristeza, a dor e o medo. Há espaço quase infinito nos media para a economia, para o futebol, para produtos de beleza, mas não há quase nenhum espaço para falarmos sobre as nossas vulnerabilidades.

A verdade é que estamos numa verdadeira panela de pressão. As pessoas não estão bem. Algumas mais assustadas, outras mais passivas. Umas ansiosas, outras deprimidas. Algumas estão enfrentando dificuldades concretas, outras, medos sombrios que aparecem de repente. Algumas estão buscando apoio e muitas outras não – seja por vergonha, por falta de tempo, ou por qualquer outra razão.

Esse texto é só para dizer que quem está mal não está sozinho. Há muitas dores vagando pelas madrugadas. Há muita gente chorando – algumas com lágrimas, outras por dentro. Há muita gente perdida, mesmo dentro dos seus caminhos. Há angústia espalhada em muitos lares. E tudo bem. Há-de ser uma fase. Busquem ajuda, conversem com amigos, não tenham medo de parecer fracos. Estarmos mal de vez em quando é um evidente sinal da nossa natureza humana. Ainda bem.

(E se você, se se identificou com este texto, lembre-se que ele pode servir como abraço a outras pessoas. Envie, compartilhe e mostre a mais pessoas que não estar bem é normal, sobretudo agora.)