Rádio Observador

Estilo de Vida

Um vício anacrónico

Autor
  • Rui Martins

Num padrão de vida urbano, com uma saída de fim-de-semana por mês e trabalhando e vivendo em Lisboa, ter carro e não o substituir pelo transporte público ou mobilidade partilhada é um vício anacrónico.

Em 2016 um estudo da LeasePlan de 2016 mencionava que “um proprietário de um carro em Portugal pode gastar, em média, entre 477 euros para viaturas a gasóleo e 525 euros por mês para veículos a gasolina, ou seja, o gasto mensal com o carro equivale a quase um ordenado mínimo nacional (557 euros em 2017)”. O valor, hoje, em meados de 2019, deve ter crescido até, pelo menos 500 euros e aproximar-se, cada vez mais, de um salário minimo. Se soubermos que – segundo a Pordata – em 2018 22,1% dos trabalhadores portugueses recebia, precisamente, o salário mínimo e que cerca de 80% dos pensionistas recebem reforma média de 364 euros é preciso colocar a pergunta: Ter carro é, mesmo, uma opção sensata do ponto vista da economia familiar? Se colocarmos estes valores em comparação com as opções que hoje existem à nossa disposição veremos que, muito provavelmente, a prazo o “vendedor de automóveis” está tão ameaçado como outras profissões que hoje estão extintas como os vendedores de enciclopédias, os dactilógrafos ou ascensoristas.

“Ter” um carro hoje em dia pode, com efeito, não ser a melhor opção económica para a maioria das famílias portuguesas e numa análise fria e racional (os “carros” tendem, contudo, a trazer tantas paixões e ódios como os clubes de futebol…) a verdade é que as alternativas actuais de mobilidade partilhada juntamente com os transportes públicos e um aumento — desejável — das deslocações a pé pode ser muito mais interessante não somente para as finanças familiares, como para o clima, para as importações lusas de combustíveis e para as despesas públicas em manutenção e construção de estradas e estacionamentos automóveis (e do espaço que ocupam nas cidades: melhor aproveitado em ciclovias, passeios e, claro, habitação onde tal for possível).

Se avaliarmos opções de mobilidade partilhada, por exemplo, as oferecidas pela DriveNow com mais de 200 BWMs e Minis (activa em várias cidades europeias e em Lisboa) são, no mínimo, interessantes: 3 horas: 20€ em vez de 29€; 6 horas: 39€ e 12 horas a 80€ , tendo estes preços descido recentemente cerca de 10 euros cada um e incluindo, todos, custos como o parquímetro (mas com zonas de exclusão), seguro, combustível já incluídos. Este tipo de mobilidade é perfeito para que se desloca dentro de Lisboa, em trabalho ou lazer ou faz pequenas e breves deslocações à periferia.

Se precisar de sair para mais longe, passar um fim-de-semana fora ou viajar a opção de alugar um automóvel pode complementar o uso de um carro partilhado com um aluguer de um carro: algo que pode ficar entre os 70 e os 80 euros. Mesmo se uma família sair todos os fins-de-semana num mês não gastará mais de 300 euros: ou seja, um valor semelhante ao que se pagaria por um empréstimo automóvel a 120 meses por um carro usado de 20 mil euros… Se sair apenas um fim-de-semana por mês a opção, conjugada com uma mobilidade partilhada, como a da DriveNow, parece ainda mais vantajosa quando comparada com os estimados 500 euros do estudo da LeasePlan… E sem as chatices e incómodos dos impostos, da manutenção, dos pneus, seguros, estacionamentos, etc, etc…

O uso da mobilidade partilhada não vem, contudo, sem limitações: por exemplo, se sair do perímetro da cidade e das zonas dentro de Lisboa onde os veículos da DriveNow podem estacionar não poderá “terminar” a viagem (se estiver fora da cidade pode estacionar e colocar o carro em modo “Park e Keep” em que se paga menos ao minuto que pela tarifa normal (0.15 euros): ou seja cerca de 9 euros por uma hora neste modo de estacionamento.

O maior obstáculo a deixar de ter carro e a passar a viver em regime de mobilidade partilhada (soluções tipo DriveNow conjugadas por Cabify ou Uber), mais transportes públicos, bicicletas partilhadas (GIRA e Uber) e mobilidade pedonal é, de facto… emocional. Com efeito muitos portugueses associam a propriedade de um carro com a sua indepêndencia financeira, a “saída de casa” dos pais e a liberdade para poderem viajar. Para muitos, ter um carro próprio confunde-se com a própria identidade pessoal e por isso conheço muitos casos em que embora o cidadão esteja acamado, continua a ter o carro estacionado frente a casa, num local regulado pela EMEL (ou outra empresa semelhante) precisamente porque ter carro o “faz sentir vivo”. Se descontarmos o factor emocional, podemos dizer que num padrão de vida urbano, com uma saída de fim-de-semana por mês e trabalhando e vivendo em Lisboa, ter carro e não o substituir por transportes públicos ou mobilidade partilhada é… um vício anacrónico.

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