A minha posição é diferente da de muitos portugueses. Sou emigrante, tenho funções de responsabilidade no país onde vivo, pois dirijo uma grande cadeia de lojas na área alimentar. Sou também o maior accionista do Observador (onde faço ponto de honra de não interferir na área editorial).

Embora trabalhando no estrangeiro, estou bastante ligado a Portugal, onde vou com frequência e onde tenho grande parte da família.

Esta crise tem sobretudo mostrado tudo o que há de bom entre nós. Todos entendemos rapidamente que é importante ficar em casa e orgulhosamente estamos a cumprir. Movimentos solidários em coisas tão simples como ajudar os mais idosos a fazer compras apareceram espontaneamente em todo o lado. O país uniu-se e, em geral, deixou o que não era importante fora de casa.

Aqui na Polónia tento garantir que 25.000 pessoas trabalhem todos os dias de forma a não interromper os circuitos de distribuição de comida. Aqui, como em Portugal, os trabalhadores dos supermercados são heróis silenciosos, aqueles que não podem ficar em casa, que não se podem proteger de forma tão eficaz como grande parte da população. Vão trabalhar todos os dias cientes que não podem parar, que são necessários, que têm uma missão a cumprir. Tenho a certeza que os dirigentes da Jerónimo Martins ou da Sonae sentem o mesmo orgulho que eu sinto todos os dias de manhã quando vão para o escritório.

Outros grupos de pessoas são importantes para nos dar o que é necessário, e dou como exemplo os meios de comunicação social. Num mundo cheio de fake news alguém tem que trazer as verdades a público, alguém tem que trabalhar todos os dias para nos mostrar a realidade, para nos proteger de inúmeras teorias da conspiração que só servem inimigos desconhecidos. Aqui começo por agradecer aos nossos colegas do Observador pelo excelente trabalho que fazem, mas como português tenho que agradecer a todos os grupos de comunicação social sérios que nos continuam a informar todos os dias apesar das dificuldades, sobretudo económicas, que esta crise traz. De notar que mais uma vez os portugueses responderam, porque embora a publicidade tenha parado, o número de assinaturas está a crescer mais do que nunca.

Hoje em dia passo muito do meu tempo a desmontar fake news. Vejo isto como uma obrigação social, porque obviamente sempre que partilhamos um vídeo ou uma notícia de fonte duvidosa estamos a fazer mal ao nosso país. É um acto de traição contra a sociedade como outro qualquer.

Ter opiniões diferentes é óptimo e vai ajudar-nos muito para sairmos da crise económica que já se está a formar muito rapidamente, mas espalhar noticias falsas e não confirmadas é claramente dar um tiro no pé e ajudar os nossos inimigos, aqueles que se movem na sombra desta crise.

Os nossos grandes heróis são obviamente os profissionais de saúde, que arriscam literalmente a vida, todos os dias. Eles são a primeira linha e espero sinceramente que não sejam esquecidos quando toda a situação normalizar. Temos que tomar conta deles como eles tomaram conta de nós. É no mínimo uma obrigação moral de todos nós.

É minha opinião que, pelo menos no mundo desenvolvido, vamos ter capacidade de sair da crise sanitária relativamente rápido porque nunca se tomaram medidas tão drásticas como desta vez. A crise económica vai ser resolvida de seguida, pois também neste caso nunca os bancos centrais e governos actuaram tão rápido e tão forte como na última semana.

Em Portugal temos uma oportunidade única para usar todo este dinheiro de forma a ter o máximo efeito na economia não só a curto, mas também a longo prazo. Também aqui me congratulo com iniciativas como a da Universidade Católica, que criou uma task force com os melhores economistas para analisar e aconselhar o momento pós-crise de saúde.

É importante o poder político posicionar o país para sair mais forte e mais competitivo desta situação. A forma como saímos da crise financeira de 2008 é um bom indicador de que somos capazes.

Como emigrante termino agradecendo a forma como todo o país está a proteger os meus pais e todos os nossos idosos.