Ao contrário de muitos dos autores de artigos e de declarações que li e ouvi, ontem e hoje, aqui no Observador, nunca conheci Vasco Pulido Valente (VPV). Tinha até a ideia, se calhar errada, de que seria uma pessoa “amarga”. Mas tive o privilégio de ler muitas das colunas e alguns dos livros que escreveu.

VPV marcou-me por duas coisas. Primeiro, pelo enfraquecimento que causou ao mito “republicano” que a propaganda dos próprios instalou em Portugal, como Miguel Pinheiro aqui refere. Em livros como “O Poder e o Povo” ou “A República Velha”, VPV mostrou como a mediocridade se alastrou em Portugal no período pós-5 de Outubro de 1910 e como a violência se generalizou, especialmente na cidade de Lisboa.

Os episódios degradantes da República começaram ainda antes de 5 de Outubro com a difamação maçónica da Monarquia ou o suicídio cobarde do Almirante Cândido dos Reis, cujo enterro foi transformado em comício de propaganda para promover uma personalidade que não esteve à altura do momento em que viveu e que imerecidamente ainda hoje adorna as ruas de Portugal.

A degradação acelerou-se de imediato com os oportunistas que por todo o país de imediato deram vivas à República, e que VPV implicitamente comparava aos que actualmente se dividem por PS e PSD, oportunismo que se alargou aos que chegaram ao poder e aí se mantiveram manipulando eleições e largando turbas de fanáticos para assaltar jornais, associações e famílias que se recusavam a submeter à ditadura republicana.

Os episódios degradantes acumularam-se ao longo dos anos, desde a famigerada “Formiga Branca”, ao anticlericalismo primário que teve o seu apogeu com a humilhação dos jesuítas e a destruição do seu ensino, repetindo o erro do Marquês de Pombal, continuando com a trágica participação na I Grande Guerra, em que em dois anos morreram tantos portugueses como em toda a guerra colonial, ou com a difamação do verdadeiro herói do 5 de Outubro, o tenente Machados dos Santos, que acabou assassinado pelos republicanos da “camionete fantasma”.

A República marcou uma inversão no sentido da História, imitando o espírito de intolerância e repetindo alguns dos erros da revolução francesa com mais de 100 anos de atraso, e transformando o Portugal de uma Monarquia constitucional relativamente liberal para o tornar num estado ditatorial.

O peso desta mistificação republicana e das falsidades que lhe estão associadas, e que VPV tanto combateu, ainda hoje se fazem sentir. Todos os semestres pergunto aos meus alunos universitários quando é que foi feito o “corte” com o Antigo Regime e quando é que Portugal se tornou um país democrático, e invariavelmente recebo como resposta “o 5 de Outubro”.

Como a ignorância que os historiadores propagandistas republicanos disseminaram por todo o país se mantém, todos os semestres tenho de explicar aos meus alunos que a ditadura foi uma criação republicana e não monárquica.

Mas VPV foi muito mais importante do que isso, pois foi também um dos que mais contribuiu para “descontaminar” a História de Portugal de alguma da demagogia e da propaganda que a alimentou ao longo de todo o século XX, e que se traduziu não só na construção da mistificação republicana mas também em outras narrativas e inverdades associadas à historiografia marxista.

Foram várias as gerações de portugueses enganados por estes “propagandistas” da História, e especialmente na História do Estado Novo, em que existe uma obra vasta mas cujos trabalhos (pelo menos os que eu conheço) chegam sempre à mesma conclusão pré-concebida de que Salazar e o Estado Novo eram muito piores do que nós pensávamos. As recentes querelas sobre a escravatura mostram que, apesar do esforço de pessoas como VPV, os tiques marxistas ainda não desapareceram e continuam a contaminar a História de Portugal.

A ajuda que VPV deu na “descontaminação” parcial destas manipulações da História de Portugal deveu-se provavelmente ao facto de ter beneficiado de uma passagem pelo Reino Unido e pela Universidade de Oxford, onde apesar de também haver marxistas havia outras “correntes” e o politicamente correcto não se tinha ainda popularizado entre professores e alunos, como acontece hoje.

Ao longo da sua vida VPV escreveu sobre a mediocridade portuguesa dos séculos XIX e XX, mas essa mediocridade que descreveu continua presente no nosso país no século XXI. Fica aqui a minha modesta homenagem a um dos poucos Grandes portugueses que ainda restavam.