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Texto originalmente publicado pelo portal dos Jesuítas em Portugal, Ponto SJ.

O desafio definia-se como quase impossível de se alcançar. Chovia a rodos, mas havia quem dizia ser possível alcançá-lo. Vínhamos para queimar aquilo tudo, mas as palavras “après moi, le déluge!” da Madame de Pompadour ao seu amante, o rei Luís XV de França, pareciam ecoar a cada gota grossa que batia estrepitosamente no chão. Ainda perguntei pelo número de telefone do Noé, esse especialista em dilúvios, que não nos podendo ajudar nos nossos intentos, talvez nos pudesse salvar. Nada feito. Ninguém tinha o seu número. Parece que no seu tempo era moda não ter telefone e consta que assim quer continuar. Por isso, atirámo-nos ao nosso objetivo: queimar aquilo tudo. Eram sobrantes de cortes de árvores feitos meses antes. Muitos. Precisávamos de nos ver livres deles, e depois de amontoados os primeiros, atirámo-nos à tarefa de maçarico em punho. A luta era intensa e a vantagem ora atiçava-se para o lado do fogo, ora esfumeava para o lado da água.

Foi a oportunidade de contemplar, de parar um pouco a olhar para as labaredas, e ver como o nosso mundo se revela tanto nesta metáfora. Na política, na lei, no trabalho, nas relações… investe-se tanto esforço para tudo queimar. Queimar no sentido de destruir, de deixar apenas cinzas como vestígios efémeros de um passado, e da aniquilação de narrativas que incomodam.

Há um problema, queima-se tudo. A questão de fundo permanece, mas só se lhe veem as cinzas e parece resolvida. Haverá sempre mais resíduos, situações limite, e o problema a montante não está solucionado. É assim com a eutanásia, é assim com discursos que impedem o ensino online a quem pode e a quem não pode, só porque alguém o decreta, é assim com as ameaças mais ou menos veladas de quem pergunta: “alguém tem alguma coisa a dizer contra mim? Que o faça agora”. É a aposta na mediocridade, na falta de nível no exercício do poder, na extensão do seu uso até ao abuso, naquilo que é a bitola por baixo, no modo de vida das influências obscuras e dos poderes velados e mesquinhos.

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Há questões de fundo para serem confrontadas? Inflama-se o discurso, arranjam-se bodes expiatórios, e a fogueira cresce. No fim não há cabrito assado. Há apenas divisão. E nos destroços da polarização, deixando as marcas da nossa passagem por cima das cinzas, achamo-nos os reis do universo. E gritamos muito alto (porque o argumento é fraco e por isso tem de ser berrado) em tom de reclamação pela (in)justiça ou pelo direito à recolha dos despojos da guerra instalada, o que não é mais do que pilhagem. Assim o é com tantos discursos populistas, com ofensas gratuitas, com a afirmação de mentiras repetidas até à exaustão, pois desse modo parece tornarem-se verdades. Assim o é com a absolutização do discurso irritado e agressivo de exaltação das minorias, como se fossem a única tradução possível e admissível da realidade. Não é que não se devam proteger as minorias, mas a absolutização do seu ponto de vista, por vezes entra no ridículo profundo, ou num politicamente correto castrador de toda a espontaneidade. Veja-se o ridículo do “caso” da dobragem do filme Soul, da Disney, com o próprio artista a sentir-se culpado por apenas fazer o seu trabalho de intérprete para que foi contratado. O seu trabalho é representar o que não é, como qualquer ator. E é precisamente essa a acusação de que é alvo.

Mas também o oposto é dramático. Fingir que não há resíduos para queimar é permitir a acumulação de combustível que a médio, ou a longo prazo, pode ter consequências catastróficas. Conhecemos de perto o drama, literalmente traduzido pelos mega-incêndios de verão que, de ciclo em ciclo cada vez mais curto, nos vão enchendo as notícias dos telejornais. Mas também de todas as outras realidades. Não é por acaso que o SNS está a rebentar pelas costuras, ou que o ensino está cada vez mais ideológico e preso a parâmetros que têm mais que ver com interesses pessoais de quem quer controlar do que com servir o maior bem dos alunos. Tem que ver com o perpetuar de sucessivas más opções, que se acumulam em consequências nefastas com o passar do tempo. O ir aguentando, encolhendo os ombros, sem denunciar a injustiça, sem lutar contra o que abafa o desenvolvimento e o bem maior, permite que se acumule “material” que a determinada altura se torna insustentável. Encontramo-lo na desertificação do interior, na pobreza escondida e na marginalização social, na degradação dos serviços públicos, nas relações laborais. Mas também dentro de casa, nos casamentos, na fragmentação familiar, e no desprezo que se tem dado à família enquanto célula base estruturante de qualquer sociedade. E depois, de repente, tudo explode, e ficamos admirados de como foi possível. A paz podre não é paz. É só podre. Contamina tudo o que poderia ser viçoso à sua volta. Frustra a vida, a vontade de ter novos projetos, a alegria de cada momento e a esperança.

É preciso às vezes confrontar, redefinir critérios, lutar pelo mais, purificar, focar no essencial, descobrir o que faz brotar a vida. Onde há vida, aí está Deus [Lc 24, 5b-6a – “«Porque buscais o Vivente entre os mortos? Não está aqui; ressuscitou!]. A metáfora do fogo é exímia nisso. Sabemos que o que arde cura. Sabemos que o fogo purifica, permite que se molde, e é essencial na produção de joias valiosas. Sem se queimar o que é resíduo, não se pode obter a matéria livre de impurezas. Por vezes é necessário passar por provas que nos queimam, que nos deixam cicatrizes, que nos marcam. Mas que simultaneamente nos dão mais vida.

Chegámos para queimar tudo. E queimámos tudo o que era para ser queimado. A chuva abundante não deixou que ultrapassássemos nem um centímetro do que era para ser queimado. Ficou preservado o que era para manter, acabou-se com o que estava a mais, e a vida vai renascer pujante. Seja também assim com as nossas vidas.