Pais e Filhos

Mário Cordeiro: “Não devemos ser escravos dos nossos filhos”

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Ao Observador, o pediatra discute como educar uma criança: a importância do amor, dos castigos e do tempo que tanto pais como filhos devem reclamar para si. Mas há também dicas para a rentrée escolar.

Christopher Furlong

Mário Cordeiro foi pai e avô cinco vezes. Como se isso não bastasse, lida com crianças numa base diária no consultório situado na Avenida Guerra Junqueiro, em Lisboa. É um dos pediatras mais conhecidos na esfera nacional e o currículo atesta essa realidade: é membro da Sociedade Portuguesa de Pediatria e da British Association for Community Child Health. Os livros que escreveu são, muito provavelmente, os responsáveis máximos pela fama já alcançada. O Grande Livro do Bebé vai na décima edição mas é a obra mais recente, que chegou às livrarias na última sexta-feira, o motivo de conversa com o Observador.

Intitulado Educar com Amor (Esfera dos Livros), promete ser um guia de afetos para que os filhos cresçam felizes e equilibrados. Para Mário Cordeiro, aos pais cabe a missão de ensinar as crianças, mas nem por isso a escola  foge à mesma responsabilidade: a boa educação do filho é o resultado de um esforço comum. E o que dizer dos castigos? Devem ser justos e aplicados tendo em conta o ato praticado e não a criança enquanto pessoa.

Porque hoje em dia é mais difícil criar uma família, o pediatra diz que é essencial existir tempo tanto para os pais como para os filhos. Acima de tudo, as crianças não podem escravizar os progenitores e devem tentar ser autónomas. Mais do que “lições”, oferece conselhos gerais e, em particular, relacionados com o regresso às aulas: retomar os ritmos uma semana antes da rentrée e aproveitar esse período para ver manuais, mochilas e horários são algumas das sugestões.

EducarComAmor

Porquê este título? O que é Educar com Amor?
Pode parecer redundante, mas se fosse “10 maneiras de educar” poderia soar a receita. E isto não é uma receita. O que defendo é que não há educação sem amor, nem amor sem educação. Educar é dar armas para o percurso de vida das crianças. Além disso, é conseguir que estas percebam que a vida delas não vai gravitar à volta do seu umbigo. Daí a velha máxima que os nossos direitos acabam quando pisamos os direitos dos outros. É uma expressão banalizada, mas tem uma profundidade enorme. Compatibilizar o puzzle dos desejos de sete mil milhões de pessoas é muito complicado. E, por isso, a educação é realmente uma preparação para que a pessoa seja feliz, descubra os seus talentos, seja bem-sucedida a vários níveis e perceba que há limites.

Qual é o peso do afeto quando se educa uma criança?
O amor tem de estar sempre presente. Para que as relações entre pais e filhos sejam saudáveis estas devem ser marcadas pelo amor oblativo, o amor que não se cobra e que existe apenas porque sim. No limite é dizer-se “eu não preciso de ti para nada, mas gosto de estar contigo”. O amor dos pais pelos filhos não tem razão de ser, a não ser o próprio amor. Mas isto não quer dizer que as crianças possam fazer tudo que querem. Calma! E mesmo quando estamos tristes e desiludidos com os nossos filhos, não podemos esquecer que os amamos. Eles têm de saber isso para poderem replicar o comportamento.

Castigar também é sinal de amor?
Claro. Castigar, no fundo, é mostrar à criança que fez mal, avaliar se esta sabia que estava a agir erradamente e, acima de tudo, estabelecer uma pena. Os pais devem agir como juízes ou árbitros. O futebol, como a vida, é um desporto de contacto em que há conflitos de interesses e tem de haver quem estabeleça regras justas — embora também haja regras estúpidas. Como pais temos de castigar os atos, não as pessoas. Um filho nosso é sempre um filho nosso. E ele é sempre querido, o que fez é que pode estar profundamente errado. Ele, como pessoa, não está em julgamento, mas sim a sua ação.

Como é que se distingue uma coisa da outra?
O filho está chateado e atira um livro do pai ou da mãe para o chão. Expressou, assim, a sua raiva e isto é não está bem. O que está errado, a pessoa ou a ação? Se for a criança, digo que ela é estúpida, que é horrível, que não gosto dela; aí a criança sente-se esmagada. Ao invés, devo dizer: “Tu és querida, adoro-te, mas o que fizeste é indecente”. Só depois dou-lhe um castigo. Assim estou a dizer-lhe que ela fez uma coisa má, mas não a estou a atacar enquanto pessoa. Um bom árbitro é aquele que deixa jogar, mas que analisa — há agravantes e atenuantes. O nosso filho continua a ser querido, mas deve ser castigado. O castigo tem de ir apenas na proporção do mal que ele fez.

– A palavra “querido” é recorrente no livro e no discurso…
Vem do verbo querer. “Querido” expressa “eu quero-te”. O querer é uma coisa pessoal, é o cumulo da vontade. Quando uma pessoa diz “eu quero-te” é um ato voluntário, possessivo no bom sentido. Daí a criança sentir-se desejada e querida. O maior medo das crianças, nas várias idades (mas sobretudo nas mais pequenas), é o abandono. As crianças não têm uma noção sistémica da vida. São tão inocentes e ingénuas que acreditam nos adultos (e ainda bem). Por isso, quando um pai diz “não gosto de ti”, a consequência lógica para as crianças é pensar “ele vai-se desfazer de mim”. Temos de evitar isso. As crianças sentem-se dependentes dos pais e têm medo que estes desapareçam.

– Escreve que os pais não dizem “amo o meu filho”, mas sim “adoro o meu filho”. Qual é a diferença?
Gosta-se das coisas, adoram-se os deuses e amam-se as pessoas. Aprecia-se comida, não se ama o que se come. A adoração é unilateral, da qual não se pede responsabilidade. Já amar é diferente, é bidirecional e envolve sentimentos recíprocos — quanto mais se dá, mais se tem.

– Há pais que não amam os filhos?
É um juízo de valor dizer que não amam as crianças, mas há muitos pais que não o demonstram. E o não demonstrar para uma criança é igual a não amar. Voltando às metáforas futebolísticas, é como um jogador que sabe meter muitos golos, mas não mete nenhum.

– Também há amor quando não há paciência por parte dos pais?
Na sociedade de hoje há uma interação constante entre as pessoas. O que é que acontece a determinada altura? Há uma necessidade de cuidarmos de nós próprios, de respirarmos e de descansarmos. Quando a pessoa chega a casa, não é que a família e o filho a irritem, mas há um conflito de interesses. O interesse dos filhos, que lá estão, é saltar para cima dos pais e, portanto, gera-se ali uma confusão. É uma vida tramada, aquela que as pessoas levam.
No fundo é preciso tempo para pais e para filhos, para cada um viver individualmente. Eu entusiasmo progressivamente os pais que são meus pacientes a ganhar algum tempo para si próprios —- exceto no período de contemplação [em que a criança acabou de nascer]. Para que servem as madrinhas e os padrinhos? Precisamente para carregarem um pouco do fardo quando é preciso. Acho igualmente importante que as crianças sejam cada vez mais autónomas e que possam passar algum tempo sem os pais.

– É mais difícil ser-se pai hoje em dia?
Talvez existissem mais estereótipos nas gerações anteriores, isto é, o pai fazia assim e a mãe fazia assado. Não gosto de generalizar, mas de grosso modo era assim. Antes os filhos eram os “menores”, e porquê? A expressão não tem que ver com o tamanho, mas sim com menorização. O pai, por exemplo, estava quase proibido de mostrar publicamente o afeto. Agora é raro ter uma consulta em que não venha o pai e a mãe. E eu fomento isso. Antes, o homem surgia na vida da criança para a brincadeira, para a estimular, enquanto a mãe cuidava. As crianças eram um boneco que se dividia entre um e o outro nas diferentes ocasiões. Hoje os pais são mais próximos das crianças.

– Quando é que a preocupação de um pai é excessiva?
Não devemos ser escravos dos nossos filhos. Eles não nos podem sugar a vida, têm de se habituar a ser autónomos e, de igual modo, saber precisar de nós. É aí que estou em desacordo com o Carlos González — em relação ao Estivill temos divergências quanto ao método do sono, do desamparo e de deixar a criança chorar, mas isso é outra história (o desamparo não faz bem a ninguém e é o contrário do amor). Em relação ao González, li que quando um filho nosso quer uma coisa temos de desligar a televisão para o ouvir. Calma! Se há direitos dos filhos, também há direitos dos pais.

– O que define uma boa educação?
Gosto mais de falar em ensino e em aprendizagem. Há o ensinar, que implica informação, sabedoria e modelo. O aprender é desenvolver talentos e conhecimentos, ouvir experiências e, através delas, desenvolver sabedoria. Um bom educador é a pessoa que, na medida do possível, tenta ser coerente, consistente e justo. Mas também saber que podem haver reações àquilo que ensina, tal como a rejeição.

– Que valores devem ser transmitidos às crianças?
Respeito, amor, responsabilidade, empatia, partilha e solidariedade. Mas os valores são coisas abstratas para uma criança, pelo que é preciso dar exemplos práticos. Até aos cinco, seis, anos a criança está numa fase em que predomina o concreto.

 

“Ensina-se e aprende-se de todo o lado, tanto com os pais como na escola”

– Quais os conselhos que dá aos pais no regresso às aulas?
Depende das idades, se é a primeira vez que a criança vai para a escola ou se há mudanças de ciclo. É bom conversar sobre o que vai acontecer, sobretudo quando na primeira classe, e explicar alguns medos: “É natural que não conheças ninguém; que penses que a professora esteja a olhar só para ti; que dos 26 não és obrigado a gostar de todos e que, a pouco e pouco, vais vendo quem tem mais que ver contigo…”. Explicar também que é preciso ser-se organizado e metódico, saber enquadrar todas as tarefas do dia-a-dia nos vários dias.
Outra coisa que é muito importante: a criança pensa que ao ir para a escola, no momento em que entra, já está a ler e a fazer contas, sente-se pressionada. Digo sempre no consultório “a última letra do abecedário geralmente é aprendida em maio, até lá tens muito tempo”. Dar uma semanada também é importante; sugiro dois euros por semana. Implica ser-se responsável: “Trabalhaste uma semana, tens aqui uma semanada. O esforço foi recompensado e o teu poder aquisitivo está na razão direta do teu trabalho”.

– Das férias para as aulas há uma mudança de hábitos muito grande…
Advogo uma semana antes de começar as aulas para retomar os ritmos. Acho que é bom aproveitar esse período para ver os manuais, as mochilas, os horários, para comprar o material… E ir deitando o filho mais cedo. Trata-se de um reset tranquilo — não pode ser instantâneo.

– O que é que um pai pode exigir de uma criança: qual o equilíbrio entre o trabalho e o ócio?
Exigir que cumpra [as obrigações], mas dar alguma liberdade à criança de gerir a sua vida. Sobretudo que não exija ao filho que entre no quadro de honra, que acho que é uma coisa a abater — é muito injusta, como se a honra se medisse por notas! Cada um deve-se comparar consigo próprio, tentar a excelência de si mesmo. Nós não temos competência para tudo, ponto, e temos de meter isso na cabeça dos pais e dos filhos. Em vez de carrascos, os pais devem ser juízes/árbitros.

– Quais são os maiores desafios de uma criança quando a aprender?
É encarar, na maior parte das vezes, uma escola nova e habituar-se ao estar na sala de aula. O impulso de levantar e falar é tolerado no jardim-de-infância, mas não ali [aulas da primeira classe]. Por outro lado, trabalhar em grupo, adaptar-se a outros meninos e ao relacionamento com as auxiliares, que é fundamental no meio disto tudo. O pai deve observar tudo e fazer-se sócio da associação de pais para poder intervir e tentar mudar o que se pode mudar, compreender e ajudar onde pode.

– O pai educa, a escola ensina?
Ensina-se e aprende-se de todo o lado, tanto com os pais como na escola. Sempre que há um momento relacional, há uma ocasião de ensino e de aprendizagem. A escola deve ensinar, não apenas a nível académico, mas também social e relacional. O mesmo com os pais. Um não substitui o outro.

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